Žižek Vs. Han - tipo e perspectiva, por Victor Leandro

24/06/2020

Há algumas semanas, chamou a atenção a resposta dada pelo pensador coreano Byung-Chul Han a Slavoj Žižek, na qual considera que o capitalismo tende a sair mais fortalecido do cenário pandêmico, a despeito do que pensa e defende o filósofo da Eslovênia.

À primeira vista, e à luz dos fatos ululantes, a posição de Han parece muito mais racional e consciente. Nenhum grande movimento parece estar a caminho da deposição do mundo do capital. Contudo, seria de uma inteira ingenuidade e simplismo achar que Žižek não está a par do mesmo diagnóstico. O que Han fala é a todos evidente. Porém, não é isso que interessa.

O que Žižek procurou fazer com sua intervenção foi apontar uma via alternativa pela qual seria possível superar os impasses em voga, e propor novas linhas atuantes. Sem dúvida, um sistema tão sólido como o capitalista jamais seria deposto por si mesmo, por mais decadente que esteja. Assim, faz-se necessário construir uma práxis modificadora que o coloque verdadeiramente em declínio. Nisso, os intelectuais desempenham um papel fundamental, traçando as metas diretivas e os passos a serem realizados. E foi exatamente o que Žižek fez, ao tempo em que também ajudou a mobilizar vozes em torno desse objetivo.

Traduzindo em termos lukascianos, o que se tem nesse exemplo é uma versão política das relações envidadas entre tipo e perspectiva, dentro das quais Han representa o primeiro ponto, que se prontifica a determinar o que ocorre, enquanto do outro lado se têm as vias disruptivas de Žižek para pensar o rumo a seguir.

Na luta revolucionária, engana-se quem imagina dever pautar-se sempre num realismo crítico. Sobretudo, de que se trata é de iluminar a saída do abismo. Aos que duvidam, basta relerem o Manifesto. Tudo nele é transfiguradora perspectiva.

O resto fica para os tipos de Han. Nada menos inconformado que uma certeza improdutiva.