Voz de Estudante - A pandemia que revelou outras mil, por Maria Rodrigues

22/06/2020

A história da humanidade foi moldada por doenças, que ceifavam vidas aos milhares, a cada criança que morria de cólera, ou a cada praga que assolava territórios inteiros como uma tempestade de areia que surge impiedosa do deserto.

Com o tempo, a humanidade ganhou experiência e conhecimento, e passou a saber que essas tempestades ocorrem mais cedo ou mais tarde, porém, pouco foi feito para preveni-las.

Tivemos a peste bubônica, que trouxe à sombria Europa Medieval cenas ainda mais infernais, agravadas pela falta de conhecimento e de qualidade de vida. As ruas imundas entupiam-se de cadáveres e corpos purulentos, vivos entre a vida e a morte, com flagelantes andando pelas ruas a chicotearem-se, buscando a cura em fileiras de martírio e superstição, em uma Idade das Trevas na qual o pensamento racional era fortemente limitado, e proibido.

Até hoje, nos confins mais empobrecidos de um mundo que vai ao espaço sideral, mas não consegue sanar a miséria à qual a vida de muitos é jogada (fora), crianças morrem desidratadas e desnutridas, vertendo de si a diarreia mortal da cólera, declarada pandemia seguidas vezes, e da tifóide, pois não têm nenhuma água - além da contaminada - para beber e tentarem manter-se vivas.

E agora, em 2020, o mundo inteiro está acometido por um novo vírus, pandêmico e atroz, que trouxe a nova doença: a Covid19, e revelou outras, muito mais velhas, e a face podre e decadente de toda uma sociedade, de todo um sistema econômico e de vários governos planeta afora.

Do mesmo modo que um indivíduo com o sistema imunológico suprimido por doenças preexistentes que o impedem de se defender e manter seu organismo estável, uma região e todas suas estruturas social, econômica, comunitária, científica, política e administrativa, se estiverem deficitárias, contraditórias e ineficientes, sofrerão um enorme e trágico impacto com uma pandemia.

A guerra fragiliza países inteiros, destrói sua estrutura, destroça comunidades e pessoas física e mentalmente, além de gerar fluxos desolados de refugiados, que sobrevivem em fuga e em campos perigosos, superlotados e à beira - se já não estiverem - na escassez de água, comida, roupas, habitação e recursos médicos. A guerra por si só já é desumana, e mostra-se ainda mais quando multidões de refugiados e pessoas que vivem em meio a tiroteios, genocídios e bombardeios, nas piores condições (sanitárias, mentais, alimentares etc) são forçadas a lidar com uma doença altamente contagiosa e muito mais letal quando não se é amparado por hospitais adequados a tratamentos complexos, ameaçadas de morte por mais uma causa.

Há uma ameaça mais sutil, mas também covarde e impiedosa: a ignorância. Quando se nega o conhecimento nas formas científicas, as mais reais que temos, escolhe-se voltar à Idade das Trevas, em troca de quê? Falsa normalidade, poder, conforto? Os vícios humanos são a lâmina que nos corta, que pode nos extinguir.

Governos autoritários escondem os fatos e odeiam aqueles que querem mostrá-los, são os maiores adoradores da ignorância, pois ela é combustível para o carro danificado de seu poder. Nos momentos em que ignorância e autoritarismo juntam-se à doença, esta se torna ainda mais letal, já que a sociedade é fragmentada, ameaçada e fragilizada, o cidadão comum torna-se descrente do risco de vida que a pandemia representa, e está dando seu sangue, ou melhor, seus pulmões, para viver uma normalidade de aglomerações e consumismo que já não existe mais.

Essa antiga normalidade foi detonada pela bomba do Sars-Cov2, produzida pela natureza e ativada pela mão do homem, com o desmatamento e o comércio cruel de animais, e tornada mais e mais letal pelas doenças da guerra, da fome, da pobreza, da ignorância, do autoritarismo, da busca inconsequente por lucros, da desigualdade social e muitas outras, inumeráveis falhas humanas, das quais todos estão sendo lembrados por um minúsculo e invisível, tão assassino ser acelular.

Será que acharemos e trabalharemos na cura da que serve para a Covid19 e das doenças humanas do mundo?