Viagem a distância, por Victor Leandro

19/04/2020

Passeio de casa, a pretensa cidade ao longe.

O som entrecortado das motocicletas. As ruas pertencem aos trabalhadores da noite. Não cessam as máscaras e os dizeres. Correm perigo, como de resto o perigo é tudo onde nos vemos. A hora escura vai chegar, não se pode fugir ao destino. Eis o pensamento que nos corrompe em nosso abrupto silêncio.

Ou se sabe de notícias que já não tardou. De obtusas formas, chegam-nos os gritos dos hospitais. Os ricos passeiam porque compram seus exames. É a pobreza que é a maior doença. Somos nós também que somos. Como pudemos colocar em lugar de fazer algo quem não poderia o mínimo gesto? Porém, de nada adianta a culpa. É preciso pensar como seguir.

Atravessando a ideia, contudo, a ilusão do eu persiste. Não, não apenas o animal social e político. Há uma mente que pensa em forte transpiração. E abre os livros, e olha a TV exasperada e sem ânimo. E sente uma adversidade, uma melancolia que antes se guardava inaudita, oculta nos entreatos das agora vazias ações. Falta de ar. É preciso abrir a janela. O que está lá fora é o vento a carregar uma aguda tristeza. Não tem quem possa dizer se existe o mundo ainda.

Há, por certo, outros espaços, outros planos. Só que o que ocorre é que estamos aqui, nesse lugar de abandono e de passos intranquilos. Miramos as casas, e só os tolos sorriem, mais de si do que dos outros. O terremoto que nos percorre é o que nos joga para o fundo de um abismo. Lá, estamos nós e nossa intolerável imagem no espelho. É muito melhor dormir que suportar esse transe.

Mas quisera pudesse o sono diluir por um momento o desencanto. Mesmo no sonho, a lassidão nos persegue como um fantasma violento. Despertos os olhos, viajamos à volta do quarto ausente. É o que nos causa o estranho nada que anuídos esperamos.