Velório, por Victor Leandro

30/01/2021

-Só temos duas horas.

-Assim disseram.

-Quem vem?

-Todos, ou quase.

-Não podem ser muitos.

-Mas ele era conhecido.

-Eu sei. Mas não queria. Já basta que tenha passado por isso.

-É inevitável.

-Bem, Luísa não virá.

-Por quê?

-Parece que brigaram uma semana antes.

-Muito barulho.

-São os outros.

-Quantos mais?

-Perderam a conta.

-Achei que já não estivesse assim.

-Está pior. Você só se esqueceu de ver as notícias.

Chegam os demais.

-Não podemos abraçar.

-Ah, sim.

-Eu sinto muito.

-Onde é o banheiro?

-Mais tarde vou ao Gil.

-Ficou entubado?

-Era novo ainda.

-Amanhã tem aula.

-Muito quente aqui.

-Ainda não liberaram a via.

-Ninguém quer mais trabalhar.

-É a vida.

-Chegou o pastor?

-Ele não era religioso.

- E o padre?

-Talvez venha.

-Já está no tempo.

-Mas ninguém tirou fotos.

-Falta a imprensa.

-Quando abre o salão?

-Só vim porque ela não vinha.

-Sempre dá para ir ao enterro de quem não gosto.

-Foi a vontade de deus.

-Melhor andar o cortejo.

-Nada de política.

-Amanhã já está normal.

-Passei na prova!

-Precisamos fazer uma live.

-Sorria!