Uns à venda, outros ao léu, por Luana Aguiar

06/10/2020

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), estima-se que só no Brasil exista 30 milhões de animais em condição de rua. É difícil fazer a população compreender que a questão animal, além de ser um ato de solidariedade e compaixão pela espécie animal (da qual fazemos parte, não esqueçamos), também é questão essencial de saúde pública - pois quanto mais cachorros e gatos nas ruas, mais as chances de proliferação de doenças para nós, os seres humanos, ditos racionais.

Mas como se fazer entender se a relação que a massiva maioria das pessoas mantém com os animais é especista, de compaixão seletiva e, ainda mais que isso, baseada na lógica do capital? Prefere-se comprar a preços exorbitantes um shih-tzu, um buldogue, um pug, um yorkishire a adotar um cachorro sem raça definida, o famoso vira-lata, que compartilha dos mesmos sentimentos de amor, carinho, dor. Afinal, este não é bonito, não é do tamanho "adequado", não é esteticamente agradável para aparecer nas redes sociais e gerar likes. Por isso.

Nota-se que o principal motivo para a aquisição de um animal de raça (sim, neste caso o mais adequado é o termo aquisição, pois o animal de estimação tornou-se um produto) não é a benevolência, o desejo pela companhia, pelo cuidado, mas uma agregação de status social. Prefere-se fazer parte dessa lógica absurda de proliferação e comércio de animais de raça ao invés de acolher animais já abandonados que precisam de um lar e não escolheram nascer naquelas condições, pois foram apenas despejados, deixados ao léu, por outros seres humanos, anteriormente.

O que pouco se sabe, no entanto, é que, por trás dos filhotes de animais de raça, existe uma indústria de filhotes extremamente cruel, que explora cadelas até o último suspiro de vida para que continuem reproduzindo seus adoráveis filhotes. É uma indústria que maltrata, humilha, degrada, mata.

Deixando de lado o paradoxo da compaixão seletiva da maioria das pessoas ("amam" cachorros e gatos, mas comem vacas, porcos etc.), será se continuariam comprando os animais de estimação se soubessem como a indústria de filhotes funciona? Deixariam de comprar animais para adotar e estabelecerem uma relação, pelo menos, menos especista com os outros seres vivos?

Assistam "Terráqueos". Adotem animais.