Uma greve necessária, por Victor Leandro

06/08/2020

O dispositivo de greve é sempre uma última instância, uma situação-limite. Não pode ser utilizado a menos que dos trabalhadores encontrem-se ameaçados direitos precípuos. Do contrário, ele tende a cair na banalidade e na vulgarização política, comprometendo de modo peremptório sua operacionalidade.

No Amazonas, talvez em nenhuma outra ocasião a paralisação dos professores foi algo tão premente, uma vez que o que está debate são suas próprias vidas, mas não só: é de toda a comunidade escolar, bem como da população em geral que a ela está vinculada. Na ausência das autoridades sanitárias constituídas, resta aos docentes darem a lição de como se deve preservar a saúde dos indivíduos. Um exemplo conspícuo de sua consciência epistêmica e responsabilidade coletiva.

Por óbvio, os poderes oficiais fazem resistência. Alegam que as escolas privadas já estão abertas, e que se a rede pública não reabrir o abismo entre os sistemas ficará ainda mais profundo. Nesse argumento, a única boa notícia é o Estado reconhecer que o abismo existe e já de há muito tempo. No mais, cabe apenas perguntar o que significa isso diante da ameaça à própria existência.

A greve dos professores é um dever ético, um ato fundamental de coerências com os saberes por eles compartilhados e defendidos. Nisso, parafraseando positivamente a frase de burgueses arrogantes, eles provam que são mais que cidadãos, mas trabalhadores, pais, mães, filhos, e também humanistas. Defendamos sua luta. Por ela passa o direito à vida da sociedade como um todo.