Uma cilada para Paulo Guedes, por Victor Leandro

09/07/2020

Tão logo os impactos econômicos da pandemia começaram a ser mensurados, o fundamentalista ministro da economia colocou-se a dizer, em mais um dos seus mantras ideafixos, que os efeitos não seriam tão graves quanto se supunha, e que o Brasil iria surpreender, a despeito do que consideravam os estudos mais criteriosos.

Passados alguns meses, hoje despontam alguns sinais de melhora na análise dos números, e seu raciocínio parece mostrar-se ao menos em parte correto. Contudo, isso a rigor não confirma nada acerca de sua perspicácia prospectiva. Aquela frase seria dita de qualquer jeito, não importa qual fosse o contexto e o resultado. De todo modo, para além de seu conteúdo superficial, cabe pensar de que maneira tal possibilidade de acerto está sendo vislumbrada, no que se revela a contraditoriedade das ações frente aos princípios.

Ora, por que afinal houve alguns números favoráveis, principalmente no comércio? Se a economia não desabou inteiramente, isso se deveu sobretudo às ações intervencionistas do Estado, que, embora aquém do necessário para suprir a população, provocaram um alívio e mantiveram a atividade econômica. Some-se a isso a manutenção dos salários dos trabalhadores por meio de programas de crédito e outras garantias, e o que se viu foi um esboço de governo de bem-estar social salvando o país de um cenário de terra arrasada, para qual antes mesmo da crise ele estava iminentemente pronto.

Aí é que está a arapuca montada para Paulo Guedes. Se as coisas derem menos errado do que o previsto, isso deporá contra ele, pois só foram assim confirmadas mediante a supressão de seu liberalismo grosseiro ferrenhamente defendido. Por outro lado, se o que advier for um grande desastre, tal só ratifica as limitações de seu pensamento. Portanto, de qualquer forma, o seu jogo já está completamente perdido.

Em uma de suas frases magníficas, Friedrich Nietzsche nos alerta que não basta fazer a coisa certa, mas também pelos motivos certos. De igual maneira, é frágil dizer algo correto, quando não se tem o domínio dos motivos. Mas essa é a tônica e a lógica desse não-governo. Ele só pode ter razão numa frase quando não tem nada a ver com os fatos aludidos. De resto, fica a sua mediocridade e ausência, da qual o outrora superministro se apresenta como o seu mais emplumado artífice.