Uma breve leitura de quarentena, por Anne Caroline

23/04/2020

"E agora era reconhecida a presença da morte rubra. Ela entrara como um ladrão na calada da noite.                        

                     Edgar Allan Poe

Tomada pela quantidade de trabalho e material literário disposto ao meu redor no assolador, e ainda confuso, tempo de quarentena, leguei uma tarde à leitura de Poe. Uma escolha bem fundamentada. Há alguns dias já vinha pensando no paralelo que, de forma inconsciente e espontânea, se estabeleceu em minha mente enquanto assistia a um vídeo aleatório de outra pessoa narrando seu tempo de quarentena. Por todos os fatores entregues no vídeo (o fundo de uma sala luxuosa, as roupas do interlocutor, a mesa farta de comida, o fato de se tratar do relato de uma pessoa famosa), logo a ideia de segurança é apresentada a quem quer que esteja assistindo. Essa pessoa está muito segura, numa casa gigante, provavelmente com seus familiares, em quarentena, não tendo a necessidade de sair em momento algum, enquanto parte do mundo mergulha em caos. E não há nada de errado aí, quando isso é justamente o que alguns podem e devem fazer: proteger não apenas a si, mas aos outros, evitando que a pandemia se prolifere ainda mais. Não deveria haver problema nisso. O problema está no fato de que nem todos se encontram a par desse mesmo privilégio. O problema encontra-se quando algo que deveria ser um direito, torna-se um privilégio. Quando as pessoas intocadas pelo caos recitam verdadeiros hinos ecofascistas sobre como esse vírus irá fazer bem ao meio ambiente, poupando a terra da convivência dos homens. Associei rapidamente toda aquela situação à imagem que eu possuía do Príncipe Próspero, do conto A máscara da morte rubra, de Poe.

No conto, uma peste nomeada Morte Rubra, pela forma que acomete suas vítimas, devasta toda uma região, deixando centenas de mortos. Mas o Príncipe Próspero, homem sadio e corajoso, não se deixa abater ou intimidar. Recolhe mil de seus amigos mais íntimos e despreocupados para juntos recolherem-se em uma abadia fortificada. Uma fortaleza impenetrável. Ali, festejam e divertem-se, enquanto a Morte Rubra vagueia no mundo além dos muros do lugar. Mas o inimaginável para os cortesãos acontece, e a própria Morte Rubra em sua máscara cadavérica faz-se presente em uma entrada triunfal e assombrosa no baile do príncipe, no refúgio onde todos julgavam estar protegidos.

Recordo de muitas interpretações atribuídas a esse conto nas aulas de literatura. A mais direta e famosa consistia em uma clara crítica de Poe ao desmazelo com que a classe dos abastados lida com emergências a nível coletivo, excluindo as classes mais baixas do mesmo direito a saúde e segurança (e Poe exprime incisivamente essa visão em seu conto "o mundo exterior que tomasse conta de si mesmo. Nesse meio tempo era tolice angustiar-se ou pensar.").

O Príncipe Próspero está feliz, está seguro. Milhares de príncipes prósperos então seguros nesse momento, enquanto o "mundo exterior" cuida de si, sai para trabalhar em horários de pico porque não foram liberados pelas empresas para as quais fornecem serviços. Em alguns países fala-se de suspender aluguéis e pagamentos de contas de luz e água. No nosso, o energúmeno no posto de presidente fala sobre cortar salários para "impedir demissões".

Ao final do conto, com a própria Morte Rubra surgindo no baile do Príncipe e matando a ele e a todos os seus convidados, Poe encerra de forma magistral dando a entender como nenhuma classe social é isenta a morte, mesmo que se refugie em palácios e castelos, mesmo que usufruam de toda a segurança que o dinheiro possa pagar. Poe não viveu no mesmo contexto em que agora nos encontramos, no advento da pós-pós-modernidade, e nem o covid-19 é uma espécie de Morte Rubra (e a isso damos graças aos céus). Mas quando nos deparamos com a notícia de que a primeira mulher a ser morta pelo vírus no Brasil foi a emprega de uma senhora rica que voltou infectada de uma viagem à Europa, podemos refletir sobre como a mão invisível do mercado não pode manipular a morte, mas pode direcioná-la, e sabemos quem estará na linha de frente. O mundo exterior. O mundo desassistido por aqueles milhares de príncipes que agora entendiam-se em suas fortalezas, intocáveis para a morte adornada não mais com uma máscara, e sim com uma faixa presidencial.

E talvez tudo isso me tenha vindo em mente no momento exato em que, logo após me desligar do tal vídeo, meu pai veio despedir-se de mim para trabalhar. Enquanto eu fui liberada dos meus serviços e aulas, ele, um homem de mais de 60 anos que vem lutando há um certo tempo pela aposentadoria (e palmas novamente para nosso governo), tem que sair para trabalhar e enfrentar, em meio a esse surto, aglomerações no transporte público. Não podemos nos dar ao luxo de arriscar a renda mais segura da casa que abriga seis pessoas. Mas é isso. Somos o mundo exterior. Nós que tomemos conta de nós mesmos.