Um Ragnarok malfeito e a distopia distópica do Brasil pandêmico, por Victor Leandro

14/04/2020

Decepção última. O fim do mundo não é nada do que imaginamos.

Nenhum acontecimento espetacular. Nada de deuses travando batalhas nos céus. Apenas a doença a consumir os corpos e o caos da pobreza disseminado como crise de saúde. O mau e velho descaso social, como sempre.

Mas o roteiro brasileiro ainda não é o do destino maior, e sim da distopia. O que não quer dizer que não seja igualmente esdrúxulo. Orwell e Huxley passaram infinitamente longe da gente. Ou o que dizer do que temos?

No lugar de um líder sedutor e perverso, há uma figura tosca identificada com a vulgaridade e a estupidez do indivíduo mediano, cujo poder emana de linhas completamente difusas, desprovidas de qualquer senso de direção.

Os militares, em vez de vilões implacáveis, não se preocupam com nada além do que seus cargos e benefícios.

A ciência, motor de qualquer forma de dominação moderna, é ridicularizada e convertida num inimigo do poder. Prosperidade da consciência medieval.

Quanto aos rebeldes, que deveriam opor-se agressivamente, esperam com calma as próximas eleições, enquanto fazem manifestos.

Tudo isso sem poder sair de casa, ocupando-nos com partidas de futebol antigas e seriados de qualidade duvidosa.

É uma distopia distópica. Inusitada, sem dúvida, porém sem nenhum ponto de interesse.

Só a revolução pode ser salvar esse enredo.