Um poema - por Ninguém

05/06/2020

Terceiro movimento do livro inédito Rua. Não se sabe ainda quando estarão abertas as outras vias. Na dúvida, pergunte a Ninguém.


COMO QUE DESPIDA

não de vestes

mas das vísceras

assaltada por tanto sol

e som, tanto espaço

tantos olhos antropófagos

a assombrá-la

feito fossem os outros dos seus fantasmas

(oh, o que diria o barão de araraquara?!...)

uma casa que se deslocava

incógnita num caminhão-baú

agora agoniza, envergonhada

como que no avesso de ter sido arrombada

ante suas entranhas que o desastre espalhou


a grande avenida para.

a rua requer sangue

mas, pálida, é só uma casa esquartejada


o retrato elevado do bisavô

jaz arranhado no asfalto

panela que alimentou - lata

garrafa que embriagou - caco

o pônei de pau perdeu um pé

já não pode pinotar

(certo será sacrificado)

sapatos que debutaram

de repente perderam a cor

tudo o que nas coisas era gesto se dissipou

desde que a luz da rua as enxergou


antes, ancas fincadas na terra,

a casa ocultava antigos murmúrios

guardados entre o porão

e a planta baixa da família


na madrugada o soalho

às vezes resmungava e ranhava a escuridão

talvez na copa vidros inadvertidos se tocassem

expectorante pra asma noturna?

último vermute do senhor velho pai?

na sala de visitas um espelho expandia

para o alto a ausência fria dos corpos

no forro, o vento, morcegos,

aranhas sussurravam o medo

que tinham da manhã por vir


que chegou

com o tumulto o alarido

e a surdez da avenida

carne viva da cidade


onde o cochicho da novena?

onde o pigarro do avô?

a culpa dos herdeiros, onde?

onde o sexo e o pavor?

a luz ou a treva doméstica

a trégua de um terceiro estômago

onde a casa ruminava línguas,

gargantas, gavetas, gretas


idioma agora indecifrável

que o asfalto já dispersou