Um poema - por Ninguém

30/10/2020

ERA UM HOMEM SÓ.

e morreu.

mas antes de morrer era um homem apenas

e parecia só

para os que quase nunca o viam na rua

era um homem só


no dia em que chegou

silencioso como a ponta de um espinho

a terra tomou só para si o pó dos seus passos


lá fora um cão se coça

um gato calcula um salto

um caco de vidro imita o sol

uma menina volta pra casa

mas evita a linha reta

alguém hesita bater uma porta

tudo está na rua

                                                 não está o homem só


sua casa: duas janelas frontais, fechadas

olhos que meditam profundamente

a escuridão de toda uma vida

[pudéssemos nós gente atarefada

ler da vida alheia o livro apócrifo

ou antes escrevê-lo...


foi dono de ilha no rio madeira

a enchente de 53 levou

voltou da guerra pai de mais um filho

batizou-o aparício são romão

cultivou 1 alqueire de dirijo

major ambrósio queimou-lhe a colheita

fundou a ordem irmãos do alvorecer

e a sempiterna noite inda nos cobre


por trás das cercas o sol porém se levanta

funcionário do universo

alcança cumes

atravessa bosques

tolda as flores negras da noite

quase assiste ao último crime da madrugada

e eis que da noite inconsútil

os homens já não se lembram

pois tudo agora está à vista

                                                               não está o homem só


a maré de luz sobe com o dia

inunda a rua e as retinas

só flutua a casa do homem só

ilha obscura

paredes nuas

por cujas frestas a casa soluça

a pequena vida do homem só


hoje um rádio gagueja estática

uma taça ou um espelho

ou um coração se estilhaça

um tostão tilinta um vestígio de fortuna

tosse tosse tosse

existência intermitente


mas amanhã tudo será silêncio

e a noite maior descerá sobre o homem só

e na escuridão de sua casa

primeira tumba do homem só

]ele dirá suas últimas vãs palavras

para ninguém ou para nada

ou as calará num derradeiro esquecimento:

                                                                todo homem morre só