Um poema - por Ninguém

25/09/2020

NA RUA QUE AGORA AMANHECE

um casaco resta informe na calçada

guarda nódoas de sombras da noite

entre as dobras mal acordadas

da pele que ontem um animal vestiu

(extraído que fora dela o bicho

que há milhões de anos a habitava)


corpo restante dos corpos já idos

mímico torto e abismado

no último estúpido gesto

que o acaso gravou no sudário


na rua equatorial que se dilata

nenhum nativo mais se encanta

com um couro assim

tosão dourado fosco

semimorto e abandonado

na manhã da quarta-feira


fosse um pergaminho contaria

das praias de onde veio?

do naufrágio, seixos, conchas

que o trouxeram assim roto?

da última constelação que o viu

tombar na noite de terça-feira

quando os crimes da cidade

inda repousam sob os tetos familiares?


nesta manhã é só um corpo moxo

aos 40º de indiferença dos outros

corpos que quase pisam descuidados

esse andrajo do passado

ou odre onde repousa o futuro

de quem lhe passa ao largo