Um poema - por Ninguém

07/08/2020

No décimo segundo movimento, a rua dobra a sua primeira esquina


NAS FERRAGENS VULCANO TUDO

para sua construção:

pedra são tomé

telhas portuguesas

balaústres e arandelas

e para a casa da dona de casa

o armazém tem-tem tem:

tapetes do grand bazaar

cortinas de renda paraibana

filtros de barro são joão


era o chico do som

que passava por rio acima

e divulgava as novidades d'antanho

rádio, televisão, divórcio

hospital pra gente morrer limpa

e outras tecnologias

que vieram bem depois do trem

que o imperador mandou

mas que agora só rangia os joelhos

e apitava triste tão triste

ou porque partia ou porque soubesse

que pra semana já voltava


o chico do som uma vez por mês

também trazia na voz e no forde 32

a poeira e o obituário das cercanias


monte alto:

dr. moisés era homem bom

viveu além do que precisava


encruzilhada:

coronel clemente tomou tiro que não era pra ele

deixa viúva nova e dois filhos


em jordânia:

professor cordeiro se enforcou

viveu só e morreu só, quando quis

não estava apaixonado, ou estava


as cidades estão enlutadas

e os enterros correram bem


no caminhão do chico não cabia tudo

pois novidade nunca é tanta

mas cabe a ciranda dos mortos que

um verme invisível inda não roeu

finados que o mês levara ao imenso vale


depois da litania de louça e lata

era o cortejo dos novos fantasmas

ante os viventes de rio acima

maquinalmente aliviados


mas haverá quem se descubra

longamente ouvindo...

comovido e invejoso

da graça dos que morrem jovens

da volúpia dos suicidas

da insolência dos distraídos


no fim do dia, no fim do mês

sob o arrebol num fim de mundo

ninguém que lhes tangesse um sino

sino triste em terra estranha

senão o mesmo pregão do chico

que agora carrega rio abaixo

os novos mortos de rio acima