Um médico ribeirinho, por Victor Leandro

25/04/2020

Esperava ter chegado horas antes, mas a velocidade dos rios assim não o permitia.

Já estava habituado. Era dessa maneira que muitos enfermos se perdiam. No caminho, entre uma beira e outra. Com isso, sua tarefa resumia-se a uma simples observação, dada entre as vozes dos padres e dos pastores. Como conseguiam chegar sempre antes? Eles tinham um faro apurado para o cheiro de sangue.

-Antes tarde, antes tarde do que nunca - disse-lhe a esposa.

Na diminuta palafita, saltava a miséria. Espaços vazios entrecortados por redes e um arremedo de cama, onde jazia o homem. Ofereceram-lhe água, que tinham mandado buscar no vizinho, a quem cabia resguardar a geladeira. Por um momento, quis concentrar-se em capturar o abandono ao redor, mas ficou constrangido. Virou os olhos e passou a cuidar do moribundo.

Uma febre inesperada, um calafrio, uma falta de ar crescente. O declínio, disseram-lhe, foi absolutamente inexplicável. Num dia falava, no outro sequer levantava o braço. Uma queda abrupta, dorida e famélica para quem tinha nele o único meio de sustento. As faces dos filhos já começavam a empalidecer.

-Foi depois da feira, foi depois da volta do porto.

Ele já vira outros casos, outros doentes. Os informes oficiais tinham lhe dado as instruções e normativas quanto à gravidade do assunto. Precisava explicar a todos a necessidade de afastamento. Mas como fazer isso? A ajuda chegava em no mínimo dois dias. Ninguém tinha agora para onde ir.

Fez anotações, receitou os remédios, deixou alguns frascos sobre a mesa. Aproximou-se do doente, a fim de auscultar-lhe o peito. A voz ergueu-se como se fosse vinda de um abismo.

-Então?

-Você vai ficar bem.

Na saída, antes de tomar a voadeira, deu alguns trocados a um dos meninos. Pensou em pedir para chamarem o padre ou o pastor, mas sabia que não era preciso. Certo que seguiriam ligeiros pelo rastro lúgubre. Assim como os políticos. Já no meio do rio, lançou ainda um olhar para a palafita, cuja luz interior esvaziava-se por completo. Era chegada a hora do desaparecer do dia.