Um estrangeiro, por Victor Leandro

19/07/2020

Realidade paralela. O mundo não é o mesmo para todos, ainda que estejamos sob um plano idêntico.

Ou então, basta ver isso. Sua máscara está em seu rosto, mas em nenhum outro lugar. Somente feições e gestos revelados e sorridentes, que é como se nada ocorresse, ou pior, como se houvesse apenas a insanidade compulsiva dos restaurantes. No mais, sobram iluminadas camisas novas e cuidados visuais absolutamente precisos. Como essa gente cortou o cabelo? Difícil acreditar que bastou o espelho.

Eu, por minha vez, daqui do meu lado, vago. E sou cada vez mais um estranho anacrônico a trafegar sombrio por vias reluzentes. Os que me olham nem sequer mais me entendem. Ainda acredita nisso? Esse mundo não passa de passado. O que vivemos é o novo normal, que se oferece a nós como a mesma coisa de antes e sempre.

Sim, é muito provável, na verdade é somente isso. Resignado, recolho-me. E é nesse instante que admito que nada mudou, tampouco em mim. Aonde quer que tenha andado, inevitável me acompanhou o estranhamento. Minha história foi e será permanentemente a do estrangeiro.

Já calado, já no silêncio noturno, abro Camus. Ali compreendo. Há sempre um livro a explicar os fatos por inteiro. Felizmente.