Um elogio da tradução, por Victor Leandro

26/07/2020

Imaginar um mundo incomunicável, monadológico, ensimesmado. Este é o mundo sem tradutores.

Contra as balizas da cultura, o tradutor age e faz seu ofício. Então são realidades que se comunicam por sua letra, que é muito mais do que mediação. Porém, contraditoriamente, esta permanece enlaçada no esquecimento até mesmo em algumas rigorosas notas acadêmicas, as quais teimam em não dizer seu nome, como se os livros vertidos brotassem do chão, naturalmente.

Não brotam. São o construto de um trabalho invisível, ignorado, e sobretudo criador. Um Dostoievski que precisa falar a nós como fala aos russos, e é justamente o que ocorre. E é por meio desse fato que nos vemos postos em São Petersburgo, no que são bem maiores como nós ficamos, e são menos pobres nossas linhas divisíveis.

Assim, cá estão. Schnaiderman, Rónai, Heliodora, Houaiss, Junqueira, Galindo, e muitos outros a quem ora rendemos loas merecidas.

Sem suas palavras transpostas, não haveria infinito.