Trump tic tac, China Tik tok, por Victor Leandro

03/08/2020

Com todas as suas obtusidades, é impossível negar que algumas das preocupações do presidente americano, da perspectiva do imperialismo yankee, sejam pertinentes. Questionáveis, no entanto, são as soluções por ele apontadas. Mas, concentremo-nos nos aspectos relevantes de sua inquietação. Por que os EUA deveriam dar atenção a um aplicativo de vídeos? Qual a verdadeira ameaça que pode haver nisso para os seus domínios?

Para além da desculpa irrisória de captura de dados da população, verdade é que pela primeira vez a China desenvolveu um produto amplamente aceito na esfera do entretenimento virtual, e, por conseguinte, da cultura de massas. Este terreno, que sempre lhe foi vedado principalmente por força de preconceitos e aversões xenófobas, agora começa a ceder e mostrar-se receptivo ao gigante asiático, que, pelo que tudo indica, também parece ter assimilado a dinâmica do espetáculo no mundo imagetizado e tecnológico, essencial para a proeminência de uma sociedade sobre as outras em disputa no cenário presente.

Com isso, rompe-se a última fronteira para a edificação de uma nova organização planetária, capitaneada pela China, cujas formulações digitalizadas de sua indústria cultural, tal como já foram a música e o cinema em época passadas, apresentam-se como a grande ponte de intercâmbio e adesão aos seus valores, no que os Estados Unidos irão passar a ter papel secundário e limítrofe.

Contra isso, é que está sendo travada a derradeira batalha de Trump. Porém, conforme foi dito, sua estratégia de combate é por demais grosseira frente à sofisticação de seu antagonista. Assim, o mais provável é que ele entre para a posteridade como o último imperialista de uma potência em declínio, e não como o arauto da restauração que procurou ser. Sem dúvida, ele já parte bastante tarde. Melhor suportar vídeos pavorosos do que seu predomínio ridículo.