Tradição e violência, por Luana Aguiar

04/08/2020

"Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo-terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente - não nas consequências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta" ("Mineirinho", 1962, Clarice Lispector)

No dicionário da língua portuguesa, a palavra tradição significa "a cultura passada para as gerações futuras" ou "costume, hábito adquirido". Isto é, podemos entender tradição como as atitudes repetidas ao longo do tempo por um conjunto de pessoas, um comportamento aprendido. Existem as tradições de cunho religioso, as tradições de uma região ou um povo específico; assim como elas podem também estar adequadas a uma família isolada, com seus próprios costumes e de acordo com suas vivências.

Mas existe um tipo de tradição global que se constitui pela dominação, violência e sacrifício de determinados seres para o (suposto) bem-estar de outros ou apenas para o suprimento de um bel-prazer. Dificilmente questionada, a violência sobre o outro, neste caso, é mascarada pela superficialidade da tradição. Podemos fazer uma analogia com o universo da Matrix, por exemplo: sob essa tradição da violência, tudo o que se vê e se diz parece a realidade, a verdade, mas não é. Vive-se em um mundo dado, onde seus habitantes não questionam os fundamentos de suas próprias ações.

Ter cachorros e gatos como animais de estimação é uma tradição, no Brasil, por exemplo. Em algumas regiões da China, é tradição comê-los. Esse é um exemplo bem conhecido sobre os paradoxos do consumo de animais e, por isso, muitas vezes, repetidos como se tais costumes não pudessem ser revisitados, questionados. Certamente, na cultura ocidental, qualquer um acharia repugnante comer carne de cachorro, e com razão. No entanto, a mesma pessoa faria isso enquanto mastiga um pedaço de bacon e acharia totalmente natural. Fomos ensinados a nos comportar de determinada maneira, a comer determinados animais, a não pensarmos como o couro de nossos sapatos foi, violentamente, extraído de outro ser vivo. E, quando começamos a pensar sobre tais violências, fomos ensinados que é um mal necessário.

Um caso recente, ocorrido há uma semana, na cidade de Passos, em Minas Gerais, é um exemplo sórdido de como a nossa cultura - a tradição da violência - se configura. Um touro fugiu de uma fazenda, na área rural, e se dirigiu a região da cidade. Policiais e civis, prontamente, tentaram dominar o animal para que este fosse amarrado a um caminhão e devolvido à fazenda. No entanto, a polícia, decidida a matar, dispara quatro tiros de fuzil no animal já acorrentado. Como se não bastasse, procuram por uma faca para iniciar a sangria (para não desperdiçar a sua carne!), ali, numa manhã de sol, em meio ao asfalto, e esfaqueiam o touro diversas vezes, ainda de olhos abertos e consciente.

Na crônica "Mineirinho", de Clarice Lispector, o narrador se coloca no lugar de um outro, o Mineirinho, um homem devoto de São Jorge, que tinha uma namorada, e fora encontrado morto, sem sapatos, com 13 tiros de metralhadora. Em entrevista à TV Cultura, quando perguntada sobre o caso do famoso criminoso procurado - e assassinado - pela polícia carioca, na década de 1960, diz: "qualquer que tivesse sido o crime dele, uma bala bastava, o resto era a vontade de matar". Entre Mineirinho e o touro, a vontade de dominar e, sobretudo, de matar, é a mesma.

Pensemos: o que nos diferencia dos outros animais? O que diferencia os animais não-humanos (pois, sim, humanos são animais, por mais que esqueçamos disso), como cachorros, gatos, bois, vacas, porcos, galinhas, coelhos, cobras, entre outros, para que uns despertem a compaixão humana e direito ao bem-estar e outros, porém, tenham como destino a faca vil do abatedouro? Se as tradições e culturas são tão flutuantes e arbitrárias, como justificamos, moralmente, as violências causadas a outras espécies?

A resposta é uma apenas: não justificamos.