Toque de recolher, por Victor Leandro

19/01/2021

O algo. O nada. O silêncio opressivo na janela e na porta. Há na rua dois pequenos corpos distantes, porém desaparecem ao longe. Eu os olho sozinho.

Porém existem outros ainda mais sós. No frio dos leitos, onde o abandono fabrica corpos inertes, eles aguardam por sua própria voz. Não se escutam e não se podem dizer, pois o ar falta. A vida falta. Então é que pensam em coisas simples, como ficar de pé em tardes de chuva.

Que é o vazio da existência ante a mínima possibilidade de respiro? Ou a miséria metafísica perto de um governante imbecil? Não é por deleite que se deve pensar nesses assuntos.

Assim, é dessa maneira que o olhar se dobra, e faz virar na direção da coisa autêntica. Pouco importam as mediocridades e temas frívolos. O que há agora é a causa a advir.

Contudo, existe o cansaço, o fim do ritmo. As palavras que começam a vacilar e se ausentam. O corredor escuro sem ecos e estranho como neblina. Também as memórias devassadas. E todos os gestos ridículos daqueles que, como nós, não aprenderam sobre o comum.

Uma pausa. O barulho da motocicleta corta o luar.

Depois do ocaso, levanta-se a luta.