Tele-ensino, por Victor Leandro

09/04/2020



De saída, a discussão aqui feita é enviesada, pois os motivos centrais do problema são outros. A proliferação do EaD na quarentena não tem qualquer significação pedagógica precípua. Antes, serve como propaganda política e pretexto para o avanço das iniciativas liberais de precarização do sistema de educação pública, tornando-o cada vez mais limitado e excludente.

Porém, vamos considerar por um instante a intenção sincera dos entusiastas da ideia, e levar a questão a sério em seus fundamentos. Daí então que surge a pergunta. É possível a educação a distância?

A resposta inevitável é não.

Isso é a própria etimologia que nos diz. Se educar é conduzir para fora, se é levar o indivíduo ao mundo e sua compreensão, o EaD encontra-se no reverso de um processo educativo. No sistema em curso, isso se torna pior ainda, pois sequer existe o aqui e agora das transmissões ditas ao vivo. Com isso, a própria temporalidade presente vê-se subtraída.

Resta, então, o tele-ensino, ou seja, o mero trabalho de colocar signos no doravante imanente aluno, sujeito sem lume e fixado à espera de alguma ordem e determinação. Um paradoxo da educação tecnológica, que assim regride aos primórdios da escola medievalista.

Mas que signos são estes que estão sendo incutidos? Serão eles ao menos os dos conhecimentos previstos nos conteúdos programáticos?

No contexto em que estamos, isso parece muito difícil. Que jovem consegue se concentrar mediante o caos sanitário e social em torno de sua família? Há inúmeros temas mais importantes a sua volta que os da lição.

Logo, na tele-aula, o que prolifera são os signos do consumo virtualizante. E assim avança o capitalismo, tal como um vírus destrutivo.

Longe da tela, o real persiste.