Sobre o não dito: Elon não acredita na morte, por Luana Aguiar

24/06/2020

Apesar do título nos dar alguma pista, em Elon não acredita na morte não se sabe muito sobre Elon. Nem Madalena, sua esposa. Apenas que ela desapareceu. O longa-metragem de Ricardo Alves Jr. é a busca de Elon por Madalena que, misteriosamente, não retornou após sair para trabalhar, não deu mais notícias e deixou o celular e todos os seus pertences em casa. Frustrado, Elon vai a todos os lugares em que poderia encontrá-la: no trabalho da cunhada, na casa de uma amiga de Madalena, em hospitais, na polícia. E o espectador vai, de pouco a pouco, sendo absorvido pela trama.

Sabemos, no entanto, que Elon não é um homem de trato fácil e quanto mais tempo o observamos, mais nos questionamos (ou talvez entendemos) por que Madalena sumiu. A cada conversa que o marido abandonado desenvolve com os personagens ao redor - ou até mesmo a evasão de conversas de algumas personagens -, vamos obtendo (meias) informações a respeito de sua personalidade e história. Mas o que teria acontecido entre ele e Madalena no passado para que a cunhada e a amiga da esposa lhe tratassem com tanto asco? Nada é difinitivamente respondido.

Quando lançado em 2017, o longa despertou diversas críticas negativas quanto a sua extensão de tempo - desnecessária, segundo os críticos especializados -, pois o filme não possuía um roteiro robusto o suficiente que o sustentasse por seus 75 minutos, transformando a história numa certa "redundância incômoda". Ou até mesmo o surgimento de personagens supostamente desnecessários, que não acrescentam muita informação à narrativa - como Manoel, interpretado por Lourenço Mutarelli - causaram certo descontentamento.

Elon não acredita na morte é um longa bem executado, que abusa da câmera na mão e de planos sequência. Além disso, nos presenteia com atuações excepcionais de Rômulo Braga, como personagem principal Elon, e Clara Choveaux, que interpreta tanto Madalena, esposa desaparecida, quanto Jasmin, irmã de Madalena. Sugerir que o filme obteria maiores êxitos como um curta-metragem de 25 minutos, dizendo que este deveria ser mais "objetivo", é ir contra a proposta do próprio filme (ou até mesmo da arte?). 

Não é possível pedir essa objetividade, pois o filme busca, justamente, dizer através do não-dizer. A intenção é causar incômodo e desconforto no espectador que não sabe e não tem como saber: ou melhor, que precisa decifrar o dito através do não dito, dos olhares, dos ângulos, do tempo à procura de Madalena, a esposa foragida. O desconforto de quem assiste deve ser tal qual o desconforto e a frustração de Elon, abandonado, ou talvez arrependido?  

Aquilo que não se diz sobre o passado das personagens (ao espectador) e sobre os motivos do desaparecimento de Madalena (a Elon) são o início do percurso sobre uma interpretação do silêncio, do omitido e que, ao final, entrarão em choque quando, finalmente, for descoberto o paradeiro de Madalena.