Sobre o fascismo empresarial *, por Victor Leandro

14/04/2020

*Texto complementar ao vídeo O Fascismo Empresarial ( MINICURSO: Análises do Fascismo), do nosso minicurso. 


Em termos de desenvolvimento, pode-se dizer que o capitalismo liberal globalizado encontra-se em sua última fase. Suas soluções acabaram e ele já não tem mais para onde ir. A frustração da massa de indivíduos é evidente, por conta das promessas não cumpridas, as quais, longe de terem sido indesejadas pelos grandes proprietários, encontram-se no horizonte utópico que o próprio capitalismo fabulou: uma sociedade aberta e de hiperconsumo, com empregos fartos e trabalhadores liberados de funções repetitivas e maçantes, guardando suas energias para os prazeres tão caros da vida burguesa, como viagens e festas, pois, afinal, o prazer também precisa ser uma forma de consumir, e isto também é muito bom para o sistema. No entanto, as coisas não deram tão certo quanto se esperava. Mas ainda resta uma salvação. Se o capitalismo não pôde se apresentar satisfatoriamente como solução econômico-social, resta-lhe a possibilidade de uma terceira função, que redimiria as demais, que é a via política. A premissa adotada é muito simples. Os negócios do capital não andam porque o Estado, que regula suas relações, opera em uma estrutura retrógrada e anacrônica, sem sintonia com o mercado. Para modificar essa condição, não basta apenas recorrer à lógica do Estado mínimo, e sim do Estado-empresa. Desse modo, ver-se-ia um fortalecimento da função estatal, de modo que ela constituísse uma grande sociedade anônima, cujo modus operandi seguisse a mentalidade dos homens de negócios. Os governos, aí, deveriam atuar de forma ainda mais forte, devendo a máquina pública estar apta a exercer um poder maior sobre os indivíduos, independentemente da extensão física de seus aparelhos. Essa nova força de compreensão política pode ser bem denominada de fascismo empresarial. Um Estado novamente forte, porém sob a égide do capital. Obviamente, isso só poderia conduzir a um totalitarismo que, longe de ser sutil, ativaria mais fortemente suas forças opressoras, porém sob um ideário mais difícil de ser combatido, posto que alinhado com as seduções do hedonismo consumista. Uma mudança dessa ordem só é possível mediante a ruptura com as já tradicionais formas de ordenamento político, que já se encontravam em declínio antes mesmo das frustrações capitalistas. Provavelmente, a primeira delas é a democracia, alicerce básico sob o qual desenvolveram-se inclusive as condições para o estabelecimento da sociedade que ora encontramos. 


O dilema da democracia

 Não podemos negar que a burguesia foi, em algum momento transformadora. Não no sentido da modificação de consciências, mas da promoção do movimento necessário para a queda dos regimes opressores aristocráticos. Porém, tal movimento há muito que perdeu sua força, convertendo-se numa organização reacionária que não permite mais que se rume para nenhuma outra forma de devir histórico, procurando, firmar-se como a resposta última para as questões sócio-políticas. Para impor seu itinerário, a defesa da democracia foi fundamental. Uma sociedade só poderia ser realmente livre se seus membros participassem ativamente de seu governo, o que, desde aquela época, não passou de um discurso para endógeno, escrito por burgueses para convencer seus pares. Na verdade, em nenhum momento foi pensado um processo democrático que pudesse agregar a grande maioria da população, e, ao que parece, essa nunca foi de fato uma preocupação. Com as diversas revoltas e mudanças sociais, foi necessário inserir ao menos um mecanismo mínimo de participação popular. Chegou-se, então, ao direito ao voto. Para muitos, a democracia se realiza e se encerra aí. Na prática, isso não está nada longe de ser verdadeiro. Votar é a única ação efetiva a ser tomada por todos - isso nos dias de hoje e não em todos os países - dentro da ideia de participação política. O mais fica sob o controle dos representantes. Poderíamos dizer que devemos avançar em nossa forma de fazer democracia, não fosse o fato de encontrarmos em seu grau zero. Longe de ser um ato autônomo, votar, dentro da ordem política, significa sobretudo fazer escolhas dentro de um horizonte controlado, cujos resultados invariavelmente caminham para a manutenção do status quo. Os grandes partidos, por meio de suas alianças e com base no poderio econômico, determinam as regras do jogo que será jogado. O massacre econômico é midiático é tão forte que os que se opõem a esse regime muitas vezes sequer chegam a ser conhecidos por seus eleitores, isso quando não são ridicularizados por suas propostas alternativas. Some-se a isso o determinismo ideológico que afirma que nada pode ser diferente do que é, e tem-se a perfeita falsa democracia, plenamente apta manter sua forma enganadora. Então ficamos com a pergunta. Se não estamos sequer no primeiro estágio democrático, como passaremos ao segundo? Na verdade, é nessa conclusão lógica que reside o grande erro. Assim como na revolução burguesa, o que devemos fazer é primeiro inserir novas estruturas de organização política para depois convertê-las em práticas sociais, porém com a diferença óbvia de que estas serão verdadeiramente democráticas e não a expressão da vontade de um grupo privilegiado de pessoas, que cinicamente diziam pretender universalizar seus valores, quando na verdade queriam somente consolidá-los em sua composição de classes. O voto não é o princípio que fundamenta toda a democracia, e sim sua consequência. Em circunstâncias em que o processo democrático é mais direto, ele é na verdade desnecessário, um componente supérfluo. No entanto, insistimos em pensar da maneira inversa. Eis, aí, o grande impasse democrático e o ponto de abertura para a manutenção das costumeiras políticas de privilégios. 


O fascismo,

Que há uma mancha fascista rondando o mundo é algo que já está bastante claro. O interessante foi perceber como esse retorno não pôde ser percebido pela grande maioria do estudiosos da contemporaneidade. Ao que parece, foram todos pegos de surpresa, inclusive muitos da chamada inteligência europeia, sempre pronta a fazer prognósticos bastante pretensiosos. O motivo, tudo indica, pareceu ser um certo encanto com a globalização, que seria capaz de produzir uma grande aldeia intercultural e com uma intensa troca de experiências e ideias e livres fluxos migratórios, o que integraria os povos propiciaria uma universalização das vantagens de que antes somente os nascidos nos países ricos poderiam desfrutar. Claro, havia problemas, mas nada que não pudesse ser corrigido e modificado de modo a garantir a pluralidade e a repulsa à opressão social e econômica. Mas o sonho se despedaçou, e os otimistas globalizantes agora passam por tolos. E são mesmo. É muita ingenuidade imaginar que a globalização fosse um processo isento de ideais dominadores, e que não seria freado tão logo seus líderes percebessem a contraparte dessa mudança. Imediatamente, percebeu-se um certo malestar que se efetivou na progressiva adesão às ideias proferidas pelos partidos políticos reacionários. Em figuras como Le Pen e Bush, já se encontravam os genes desse retorno à direita. O acontecimento icônico dessa transformação foi o Brexit. Até então, tudo não passava de ruídos difusos, que ali se converteram em signos de profunda significação. A Inglaterra, outrora maior potência do mundo, propulsora histórica de processos expansionistas, dizia não à Europa voltava a fechar-se em si mesma, o que deu ânimo revigorado a defensores da mesma linha de pensamento em diversos outros países, e, em especial, à empreitada americana de Donald Trump, que viu legitimado por seus colonizadores a sua promessa de devolver à América para os americanos. É claro que existe um forte nacionalismo e uma defesa do Estado como grande protetor de seus cidadãos. Dessa forma, é inevitável que estejamos falando de reprodução de muitos dos traços característicos do fascismo e das forças que o engendraram em meados do século XX. Entretanto, parece que um dado novo, que merece bastante atenção. 


agora de gravata 

Os fascistas clássicos eram militares e defensores de sua nação. Em suas palavras, prosperava uma voz que liberava toda sorte de gritos e êxtases ufanistas, afirmando a necessidade do estado como poder integrador dos verdadeiros habitantes daquela terra. Isso funcionou muito bem, enquanto a identidade nacional tinha uma certa proeminência sob a constituição dos indivíduos. Porém a fragmentação dos paradigmas identitários fez com que noções como nacionalidade perdessem força. Elas já não podiam tanto. Mas agora o nacionalismo está de volta. E com ânimo renovado para combater imigrantes, homossexuais, feministas, comunistas e demais pessoas contrárias aos valores da tradição. Numa ação reativa, houve reunião de interesses que freasse o avanço das pautas dessas classes. Contudo, cabe perguntar se foram realmente esses os reais motivos para a reascensão da direita ultrarradical. Seria muito difícil pensar, nos dias de hoje, que a moral pudesse levar os radicais tão longe. Sem dúvida, há um outro componente na equação, e que se encontra justamente na economia. Diante das repetidas crises do capital, o grande medo das pessoas e verem tomados seus empregos, quanto, mais intenso é o fluxo migratório, maiores as chances de que se amplie essa ameaça. Por outro lado, os habitantes das nações ricas culpam o excesso de estrangeiros pelos desastres financeiros dos países, sem atentar para os reais causadores do problema, que são as grandes instituições econômicas e os governos, numa perfeita assimilação da ideologia neoliberal. Aqui, temos uma subversão bem ao gosto dos dominadores. Para sanar um problema real - o colapso progressivo do sistema econômico - combate-se uma causa imaginária - o fluxo migratório. Nesse ponto, o remédio também não pode ser mais do que uma ficção, que é a necessidade de um grande líder que tenha a força necessária para impor um regime de ordem. Contudo, uma vez que os estragos nas finanças dos países foram grandes, faz-se necessário que esse líder tenha também uma aguda inteligência financeira, que recoloque o país no lugar em que merece. O perfil desse nome, dessa nova força, não pode ser diferente do que delineia o grande empreendedor: rico, firme em suas decisões, criado sob valores excludentes, praticante resoluto da meritocracia, ou seja, um homem cujo sucesso nos negócios sejam as credenciais para torná-lo apto a fazer de cada cidadão um igual a ele, como de resto são iguais todos os indivíduos que venceram na vida. Ora, um líder dessa natureza não pode fazer mais do que impor ao Estado sua própria lógica de governo. Começa então a era do presidente-executivo.

 

A política, uma arte inútil 

Após a falência das iniciativas comunistas, muitos teóricos de esquerda adiantaram-se em dizer que o fracasso não se deveu aos pressupostos teóricos do marxismo, e sim na sua má aplicação por parte dos revolucionários. Tal argumento não passou incólume pelas alas conservadoras. Para estes, isso não era mais do que uma desculpa. E talvez fosse mesmo. Contudo, a crítica não impediu que a ideia se propagasse e servisse de justificativa para diversas outras tentativas de aplicação de ideais político-econômicos, o que englobou, claro, a própria sociedade do capital. Alterando os termos da lógica comunista, o raciocínio se solidificou e ascendeu como um dogma. Criou-se, assim, a premissa de que, se o capitalismo não atingiu o ponto de proporcionar o bem-estar pleno a todos os indivíduos, é porque algo falhou não em seus princípios, mas na maneira como foi aplicado. Porém, diferentemente dos pensadores socialistas, os donos do capital encontram a permanente oportunidade para tentar de novo. E é exatamente o que vêm fazendo, sem se importar com os resultados nefastos de seus malogros. Nos tempos de agora, uma nova luz se acende. Com a ascensão do presidente executivo, elimina-se o que é considerado nocivo à nova ordem política, ou seja, a própria política, uma vez que seus agentes nada mais fazem do que obstruir com suas ideologias dissonantes, seus interesses obscuros e seu gosto pelo poder as práticas benéficas à sociedade. Visto por esse lado, o agente político torna-se uma figura anacrônica, sem qualquer relação com os paradigmas em instauração, que pedem indivíduos comprometidos com a tarefa e com um olhar cada vez mais objetivo, desvinculado de pressuposições contraproducentes. Sem dúvida, o fiasco da ação dos partidos políticos contribuiu para o surgimento dessa perspectiva. Os discursos vazios e demagógicos, os eternos planos de governo não cumpridos, a corrupção e os interesses particulares claramente opostos aos públicos criaram um amplo cenário de decepção, o que gerou uma pronta resposta da sociedade - abaixo os políticos! - que possibilitou a alternativa pelo indivíduo de sucesso profissional, com capacidade liderança e que não perde tempo com inutilidades ideológicas. Não é difícil identificar a farsa estrutural dessa proposta. Ao supostamente excluir o político, o que se realiza não é mais do que a substituição por um outro político, pautado por uma voz muito mais hegemônica e unívoca. Desse modo, não existe diferença entre a proposta do Estado-empresa e os países onde perseveram os regimes de partido único. Em ambos os casos, o que se pretende é, sob a enganosa alegação de uma limpeza ética e visando o interesse coletivo, destituir os pensamentos conflitantes a uma proposta totalizadora, que nada mais quer do que apropriar-se inteiramente da discussão acerca da coisa pública. O perigo que então se apresenta, com o capitalista na voz de comando da política, está em seu aparente ar democrático e sua promessa de novidade, que anestesia as massas contra suas intenções reais e opressoras. A proposta de eliminação do político também seduz com muita habilidade, e cria um espaço de identificação eficiente entre os membros da sociedade civil e os que postulam os cargos de governantes. Com isso, de modo inesperadamente paradoxal, a política, ao converter-se em algo inútil, permite que se liberem em seu âmago suas mais potentes forças de dominação, ao passo que faz ressurgir nos indivíduos a alegria de ser enganado, coisa que os velhos políticos já não são mais capazes de realizar. 


O caso Dória 

Não chega a ser um absurdo que um fenômeno tão recente encontre na América do Sul a forma mais bem acabada de sua aparição. Vale lembrar que muito do que se preconiza na economia neoliberal surgiu da imaginação sanguinária e ditatorial do governo Pinochet. Assim, esse tipo de vanguarda está longe de ser recebido com assombro. Lembremos ainda o que o país representa mundialmente. Está entre as dez economias do mundo, e São Paulo é a cidade-ícone de sua força financeira. O surgimento político de João Dória ali faz todo sentido. E por que não Nova Iorque, ou Londres, ou Paris? A resposta está na heterogeneidade. Embora sejam centros capitalistas, estas cidades há muito que estão marcadas por um certo pluralismo, que cria forças contraditórias. De certa maneira, pode-se dizer que não estão aptas a assimilar plenamente o ideário político em formação. Para que este prolifere, é necessário que o terreno encontre-se bastante fértil, ou seja, um lugar onde o cosmopolitismo não gerou mais do que o desejo coletivo de ultrapassar o próprio país e equiparar-se às nações ricas, o que leva inevitavelmente a experimentos que intentem formar atalhos para os sonhos de grandeza. Até a vinda de Dória, a proeminência do não político parecia um fenômeno incerto. Quem poderia levar esses aventureiros a sérios, com seus lugares comuns e receitas prontas para todos os problemas? Essa é a crítica que atinge em cheio os trampianos. Mas Dória aparenta - e aqui a aparência é o que importa - ser de outra linha. Com preconceitos menos explícitos e uma postura polida, transpassa a sobriedade necessária para cuidar de assuntos delicados da gestão pública. Com suas camisas Ralph Lauren, e seu delírio de consumismo inclusivo, imprime ao indivíduo da classe média o mimetismo próprio dos que alimentam fantasias burguesas, o que implicou numa adesão que explica muito bem sua inesperada vitória no primeiro turno das eleições municipais de SP. Ainda sobre esse acontecimento, cabe ressaltar um detalhe importante. A poucos dias da votação, Dória anunciou que, se eleito, recusaria o salário, tal como o prefeito de Nova Iorque. Obviamente, essa última frase não foi gratuita, e tocou fundo na vaidade de muitos eleitores. Seus efeitos sobre o a votação até o momento tiveram sua dimensão ignorada. Eleito, aliou a seu estilo empreendedor sua experiência na sociedade do espetáculo. Foi animador de auditório, vestiu uniformes, fez-se fotografar enquanto fingia limpar ruas junto com os trabalhadores. Simpático, aboliu o tratamento oficial dado a prefeitos - o que realmente não tem nada a ver com o ambiente corporativo. Tudo isso enquanto impunha à cidade sua estética particular, o que também não estava muito longe da visão de muitos dos que ajudaram a elegê-lo. Transformou servidores públicos em empregados, criou planos de metas para o serviços oferecidos. A despeito do risco oferecido às pessoas, aboliu o controle de velocidade em diversas vias. Em pouco tempo, anunciou que as filas de exames em postos de saúde tinha se exaurido. Além disso, chamou para sua administração o empresariado, que aderiu em peso. Em um período de tempo surpreendente, amealhou milhões de reais para seus projetos, além de formar parcerias para oferecer, dentre outras coisas, emprego para os moradores de ruas, como forma de recuperar nestes a dignidade. Sua popularidade aumentou. Nada mais óbvio. Quem não adoraria ter um prefeito assim, eficiente, prestativo, que não se envolve em negociatas politiqueiras e cumpre suas propostas em pouco tempo? Para entender melhor o salto qualitativo que Dória representa enquanto figura exemplar do Estado-empresa, basta olhar para seu rival nas linhas conservadoras, Bolsonaro. Este, embora consiga captar a adesão das alas reacionárias mais radicais, mostra-se incapaz de dialogar com um público maior, avesso a querelas contra minorias e mais interessado em manter ou alcançar uma vida confortável. Assim, embora esses indivíduos concordem em maior ou menor grau com seus preconceitos, não conseguem vê-lo como nada além disso, e, de resto, um indivíduo incapaz de oferecer a eles o que realmente precisam. Ademais, os impropérios proferidos pelo deputado o associam por demais a uma espécie de fanatismo, o que, para muitos, não soa muito bem. Por outro lado, Dória não parece preocupado o bastante em defender o conservadorismo, apenas o tem como horizonte ideológico. Sua questão principal é com o funcionamento da máquina estatal, que precisa ser modernizado. Nessa contraposição entre os dois nomes, temos o real sentido dos valores que se encontram em ascensão, pois, ainda que ser uma massa crescente veja em Bolsonaro uma figura representativa de seus preceitos, isso não é suficiente para colocá-lo como um figura capaz de dirigir o país, enquanto o prefeito paulista possui o elemento a mais necessário para tanto, do mesmo modo que Trump, porém com uma face mais elegante e soluções mais inteligentes, convertendo-o no melhor exemplo do que empresariado pode gerar para a gestão pública. Os escândalos políticos que afetaram as grandes siglas brasileiras nos anos recentes só fizeram aumentar o anseio da população por figuras advindas de outras classes. Pouco importa que estes tenham sido apadrinhados por indiciados ou por velhos caciques dos partidos; aos olhos da maioria, isso não passa de uma exigência protocolar. O que vale é o que eles trazem realmente de novo. Porém, esse novo não passa de um velho refigurado, um arranjo hipermoderno das antigas práticas de dominação e preconceitos, bem ao gosto dos que desejam a qualquer custo voltar ao passado. 


Porque fascismo

Então estamos afirmamos que os luminares da nova política são fascistas? A resposta não é tão exata. Tomados individualmente, eles não representam a força opressora característica de um Estado totalitário. Talvez seja até de se suspeitar que acreditem piamente que estão fazendo democracia. No entanto, a questão não está no que pensam ou no que constituem, mas no que constroem em seu conjunto, no que formam a partir de sua práxis e de sua ideologia. Voltemos à discussão anterior sobre democracia. A rigor, ela é um nome usado defender vários pontos de vista, senão todos, podendo designar desde o direito à propriedade e ao voto até uma forma de organização sem hierarquia e comunal. Qualquer dessas coisas pode estar em seu horizonte, o que significa dizer que o fascismo pode muito bem aliar-se a um ideário democrático, contanto que se o maneje com habilidade. De resto, poucos são os regimes políticos que não se disseram democráticos. Daí resulta que caminhar para o fascismo não é algo que é feito fora das instâncias democráticas constituídas, por menores ou maiores que sejam. Aliás, o grande perigo é que o Estado-empresa, o Estado do capital, seja de fato uma escolha feita pelos indivíduos, ainda que estes estejam sendo guiados por um posicionamento não esclarecido. Dentre dessa perspectiva, chamar fascistas os nomes da política ascendente não ajuda a compreendê-los, posto não tratar-se de algo que emana deles, mas do qual são os meros produtos. Assim, para pensar essa configuração, é necessário ater-se à materialidade da história, ao seu movimento, para verificar de que maneira o fascismo pôde gerar-se pelo viés capitalista, e de que maneira seus agentes propagam o processo. Feito isso, é que podemos mudar o curso dos acontecimentos, e os casos de seus defensores particulares não terá mais importância. O Estado-empresa é fascista porque engloba a totalidade da política à já instituída totalidade do econômica do capitalismo; porque submete os sujeitos a uma lógica opressora e impede o surgimento de rotas de fuga; e porque reduz o debate acerca da res publica a um problema de mercado; em suma, porque nos coloca aquém da menor especulação sobre possibilidades alternativas ao regime dominante. Tudo isso sem ir às armas, sem derramar uma gota de sangue além do que pertence aos explorados e não favorecidos. Sim, o capitalismo gosta de manter limpos os seus salões de festa. 


O que podemos 

O capitalismo só existe às custas de nossas impressões e anseios equivocados sobre o mundo. Porque quisemos uma realidade melhor, evoluída, livre, científica, prazerosa, ele pôde expandir-se e assumir a forma geral de nossa organização. Tivéssemos tão somente realizado esses ideais sem deseja-los obsessivamente, provavelmente estaríamos fora dessa ordem de acontecimentos. Em outras palavras, ele não passa de um grande mal-entendido. Segue-se então que, para retrair suas forças, não devemos resistir, mas desistir. De quê? Dos desejos de ascensão, do bem-estar a qualquer custo, do acúmulo, das falsas experiências, de vencer na vida, de chegar lá, de tudo quanto foi apropriado por sua doutrina e estabelecido como valor. Isso pede, claro, um novo conjunto de proposições individuais e de afetos. Quem não altera subjetivamente tais diretrizes jamais irá transformar as relações que o cercam. Uma certa verdade para consigo mesmo é necessária. Reconhecer-se como pertencente a uma humanidade comum, construída através de relações dialogantes e autênticas. Eis o sentido verdadeiro do público, do político e da democracia, ao qual só chegaremos por meio de vínculos reais com indivíduos reais, gerando uma dialogicidade que a tecnocracia do capital, com sua superficialidade, não pode alcançar. Está aí o cerne da transformação possível, a que estamos aptos a começar imediatamente.