Sobre a religião, por Bruno Oliveira

19/04/2020

Ideias superam ideias 

A práxis existe para se contrapor a outro conceito. Ideologia, em Marx, é o falseamento da realidade, a distorção de um conhecimento que poderia ser genuíno, mas que no meio do caminho, por motivos diversos, se tornou uma ilusão.

Poderíamos dizer que a religião é um dos maiores exemplos desse tipo de ilusão. Para Marx, ela é o absurdo do mundo. Na Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, nosso autor nos diz que "a religião é de fato a autoconsciência e o sentimento de si do homem, que ou não se encontrou ainda ou voltou a se perder.". Em outro trecho da obra, ele afirma: "A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma.".

Marx surge no seio de um grupo de jovens que procuravam ultrapassar Hegel, mesmo que nenhum deles, exceto Feuerbach, tenha conseguido de fato. Os hegelianos de esquerda procuravam demonstrar que o grande empecilho da realidade era a visão religiosa. Esta escravizava o indivíduo e que superada tal situação, os homens estariam livres. Para eles, esta mudança, já seria suficiente para uma transformação do real. É aqui que Marx se contrapõe ao grupo e começa a se distanciar deles para fundar a sua filosofia. 

Percebendo que essa mudança era insuficiente, já que ela se dava no âmbito do ideal, Marx propõe que uma mudança ocorra em toda a sociedade. O homem só estaria livre de fato, segundo Marx, quando cessasse o trabalho imposto pela carência e pelo exterior.

Se o que de fato comanda as nossas relações sociais advém da infraestrutura, ou seja, das relações de produção, a religião é a demanda de uma sociedade. Ela não é uma causa, é um efeito. E por tanto, ela está ali para justificar o status quo.

A religião produz homens passíveis, fracos, que praticam o autodesprezo, sempre a espera de uma justiça divina. Homens que não veem qualquer possibilidade de mudança para a realidade presente. Homens que aceitam o estado de coisas com passividade.

A superação dessa condição se dá quando a sociedade tiver a práxis como uma prática do cotidiano. Ou seja, a religião desaparece com um cotidiano racional e transparente. Mas é importante salientar 

 "(...) que luta contra a alienação econômica deve preceder politicamente a luta pela superação da alienação religiosa"*.

*Konder, Leandro. Em torno de Marx / Leandro Konder. - São Paulo: Boitempo, 2010. (Marxismo e literatura), pág. 27