Sobre a juventude, por Victor Leandro

03/09/2020

É estranho pensar que a juventude não é mais o novo, que encontra sua potência encaixotada, que não propõe rupturas, que não há mais vanguarda em suas vias. Na verdade, são os um pouco mais velhos que ainda guardam palavras marginalizadas como revolução. No mais, só moralidade, somente o mesmo. Mas como isso foi possível? O mau e velho capitalismo explica ainda uma vez sua vitória ideológica.

A estratégia é tão óbvia quanto antiga, e impressiona apenas por sua eficiência persistente. A sociedade burguesa envelheceu os jovens, fazendo-os entrarem mais cedo na sua ordem estagnada de dizeres. Contudo, ao contrário de em outros tempos, em que se obrigava o menino a tornar-se adulto o quanto antes, hoje a promessa é totalmente inversa, sendo que o que se diz ao jovem é que, por uma módica adesão aos seus ditames - cujo lema básico é sobretudo a descrença quanto à destituição do estado vigente, será possível ser um eterno adolescente.

Para comprovar essa visão, basta olhar para os produtos recentes da indústria cultural e seus consumidores. Ninguém se constrange mais de, aos 40 anos, estar curtindo desenhos ou filmes de super-heróis. Quando não, os indivíduos assistem a séries medievais recheadas de fantasias juvenis de sexo e violência, e o acordo é o de que poderão permanecer nesse universo tranquilamente em seu tempo livre, contanto que permaneçam habilmente dentro das normas quando dali saírem. E assim perpetua-se a adolescência alienada e delirante a ser desse modo transmitida de pai para filho.

Como resultado, o que se tem é isso. Antes mesmo de alcançar a maioridade, todos já falam como adultos, fazem comentários sarcásticos, julgam-se absolutamente espertos e alguns mesmo trágicos. Mas é tudo espetáculo, pura aparência. Por detrás da imagem, há somente o vazio, a infantilidade, a incapacidade de ação, e o triunfo do capital. E é por esse motivo que, não só aqui como em diversos cantos do mundo administrado, a coisa mais rara são os jovens de fato causarem algum barulho.

Em uma de suas recentes entrevistas, o editor Charles Cosac afirmou que queria recuperar a ingenuidade de tempos idos, a fim de poder ingressar em algum novo projeto criativo. Se atentarmos bem para suas palavras, talvez elas contenham o único conselho válido para as garotas e garotos de hoje: parem de ser espertos, e voltem a acreditar em suas utopias. Essa é a sua única forma de serem sérios. Essa é a única maneira de evitar a estase do mundo.