Sobre a dialética - parte V - Mudança e a permanência, por Bruno Oliveira

04/05/2020

A história "não é outra coisa senão uma transformação contínua da natureza humana" 

Ao nos depararmos com a realidade, percebemos que há movimento; a realidade é muito mais complexa do que podemos supor. Aquilo que estava aqui, já não está mais; uma coisa se transforma aos poucos em seu contrário; o ser e o não-ser coabitam.

Para dar conta de toda essa riqueza, de todo esse movimento, os conceitos que utilizamos para captar a realidade devem ser fluídos, ou melhor dizendo, devem acompanhar o movimento da realidade. Pensemos, por exemplo, no conceito de natureza humana.

Hegel concebia a realidade como um todo fechado, determinado, pelo que ele denominou de Idea Absoluta. Esta, tomando uma forma imperfeita, o homem, encontrou uma maneira para se autoconhecer. Nessa perspectiva, a história seria a história do pensamento, não da ação do homem. Este, para Hegel, nada mais era do que uma consciência, fixa (polo positivo); e todo o corpo material era algo descartável ou de pouco valor, mutável (polo negativo). Ou seja, a natureza humana não tinha nada de humano, se limitando a ser, em uma determinação, a autoconsciência da Ideia Absoluta. Um caminho já estabelecido.

Para Marx, se contrapondo a posição de Hegel, "o processo da realidade só podia ser encarado como uma totalidade aberta, quer dizer, através de esquemas que não pretendessem 'reduzir' a infinita riqueza da realidade ao conhecimento" (Konder, pág. 50). O homem modifica o mundo não pela consciência e sim pela ação, pela prática. E ação que se coloca para modificar o mundo é a natureza humana. Como o homem é o tempo todo ação, modificando o objeto, a sua realidade também muda constantemente.

"O movimento autotransformador da natureza humana, para Marx, não é um movimento espiritual (como em Hegel) e sim um movimento material, que abrange a modificação não só das formas de trabalho e organização prática de vida, mas também dos próprios órgãos dos sentidos" (Konder, pág. 51).

E é por isso que podemos dizer que a história nada mais é do que ação humana; transformação contínua de sua natureza.

Mas se a natureza humana é fluida, e se modifica com a ação do homem no tempo, por que devemos ainda conceber um conceito como natureza humana?

É claro que não há nada afora ou acima da história, mas há elementos humanos que perduram. Segundo Konder, "em todas as grandes mudanças há uma negação, mas ao mesmo tempo, uma preservação (e uma elevação em nível superior) daquilo que tinha sido estabelecido antes" (pág. 52). É interessante ressaltar, para não descambarmos para o relativismo, que a percepção da mudança e a permanência de algo só são efetivas quando o situamos dentro de um quadro de formação a que ele pertence.

Lembremos daquela velha passagem em que Heráclito diz que um homem que entra num rio já não é mais o mesmo homem ao sair (o mesmo vale para o rio). Apesar de todas as possíveis transformações, aquele homem continua sendo o mesmo homem (e não outro qualquer). Ou seja, apesar da fluidificação do homem, este apresenta elementos absolutos (no sentido de perdurar) dos quais daí podemos caracterizar a natureza humana.

E é por isso que há a necessidade de se estar atento para o uso da fluidificação dos conceitos, porque aquilo que era aparente como oposição (mudança/permanência, absoluto/relativo) nada mais são do que termos complementares.