Sobre a dialética - parte IV, por Bruno Oliveira

02/05/2020

Como já dito, Hegel foi o último representante da burguesia revolucionária e progressista antes desta se debandar para o pensamento irracionalista. Nietzsche, um dos maiores representantes dessa linha de pensamento, afirmava que a intuição do homem tem um valor de verdade (esta que para muitos deles, não passa de pura ilusão) tão ou quanto o valor do pensamento racional. Ou seja, a impressão de que algo nos causa já tem valor a ser considerado, não é necessário ir a fundo para se desvelar o real.

Mesmo que Marx não tenha conhecido Nietzsche, ou até mesmo lido a obra do filosofo da vontade de potência - e vice-versa -, ele se posicionava contra qualquer tipo de irracionalismo, preferindo se debruçar com profundidade sobre o real através das totalidades, se esforçando assim a "identificar (...) gradualmente, as contradições concretas e as mediações [grifo nosso] específicas que constituem o "tecido" de cada totalidade, que dão "vida" a cada totalidade" (Konder, pág. 44).

Dentro da análise do real, começamos com conceitos ainda muito abstratos a fim de torna-los concreto, em que este é a síntese, uma unidade na diversidade, de várias determinações. Pensemos no exemplo que o próprio Marx dá, em sua obra Grundrisse, do conceito de população:

"Se começo pela população, portanto, tenho uma representação caótica do conjunto; depois, através de uma determinação mais precisa, por meio de análises, chego a conceitos cada vez mais simples. Alcançado tal ponto, faço a viagem de volta e retorno à população. Dessa vez, contudo, não terei sob os olhos um amálgama caótico e sim uma totalidade rica em determinações, em relações complexas.".

O conceito de população é um todo que só pode ser compreendido efetivamente se levar em conta as classes que a compõem, em que elementos estas se opõem as outras, etc.

Portanto, na maneira de se aperceber da realidade temos dois estágios: um imediato, no qual a minha percepção de algo é instantânea (população; aglomerado de pessoas); e aquilo que é mediato, que vou descobrindo, construindo e reconstruindo aos poucos (classes sócias).

Dentro dessa maneira de pensar e pesquisar, que chamamos de mediação, é que nos aparece outro conceito importante para nós: contradição. Segundo Leandro Konder, a "contradição é reconhecida pela dialética como princípio básico do movimento pelo qual os seres existem" (pág. 47). Esse movimento ocorre por causa dos elementos opostos que constituem uma mesma realidade. Existem, porém, dimensões da realidade humana que não se esgotam na disciplina das leis lógicas, que é exatamente onde entra a ideia de contradição.

"Existem aspectos da realidade humana que não podem ser compreendidos isoladamente: se queremos começar a entendê-los, precisamos observar a conexão íntima que existe entre eles e aquilo que eles não são" (Konder, pág. 46)

Pensemos no exemplo do trabalho. Ao mesmo tempo que apresenta elementos positivos (a criatividade), dentro da sociedade capitalista, ele apresenta elementos negativos (a alienação). Ou seja, estes dois elementos, que podem parecer e são contraditórios, constituem o trabalho. E só podemos compreende-los dessa forma mais - digamos - exata através das noções de contradição e da mediação fornecidos pelo pensamento dialético.