Sobre a dialética - parte III, por Bruno Oliveira

01/05/2020

As condições de produção de toda sociedade formam um todo

Dentro da concepção marxista, a dialética apresenta alguns elementos que nos possibilitam resolver problemas em diversas dimensões da nossa existência. Elementos como as noções de totalidade, totalização, contradição, mediação e a fluidificação dos conceitos nos permitem ter uma ideia geral e especificas desses problemas a fim de termos ferramentas criteriosas e suficientes para a sua compreensão.

Falemos, por enquanto, de totalidade e totalização.

A vida é cheia de percalços e nos deparamos com dificuldades a serem transpostas a todo momento, e a melhor maneira de resolvermos essas situações é pararmos um pouco e analisarmos a situação. Hegel já dizia que a verdade é o todo. Ou seja, sem uma certa visão do conjunto completo desses problemas e de seus constituintes internos, estamos propensos ao erro, ao atribuir uma resposta limitada um valor que não condiz com a realidade.

Mas o que é interessante, e que precisa ser deixado claro, é que a realidade é muito mais complexa e cheia de nuanças do que conseguimos perceber - ou por vezes, aceitar. E até mesmo a nossa cuidadosa maneira de tentar captar o conjunto completo é insuficiente. Entretanto, não deixamos - e não podemos mesmo deixar que isso aconteça - de produzir sínteses e significações. Segundo Konder (pág. 36): "a síntese é a visão de conjunto que permite ao homem descobrir a estrutura significativa da realidade com que se defronta, numa situação dada".

Essa estrutura completa do conjunto é o que chamamos de totalidade, que de modo geral, significa que o todo da realidade é produto de elementos menores que se interligam e que ao mesmo tempo se modificam. A totalidade só pode ser compreendida efetivamente se forem analisadas as leis e a relação que cada elemento estabelece com outros elementos.

Definido o que é totalidade, passemos agora para a totalização.

Podemos dizer que a totalização é a área que a totalidade trabalha; é o perímetro que o conceito dialético da totalidade irá produzir as suas análises. A totalidade é apenas um momento dentro da totalização (que muda constantemente e que nunca está acabado).

"Se eu estou empenhado em analisar as questões políticas que estão sendo vividas pelo meu país, o nível de totalização que me é necessário é o da visão de conjunto da sociedade brasileira, da sua economia, da sua história, das suas contradições atuais. Se, porém, eu quiser aprofundar a minha análise e quiser entender a situação do Brasil no quadro mundial, vou precisar de um nível de totalização mais abrangente: vou precisar de uma visão de conjunto do capitalismo, da sua gênese, da sua evolução, dos seus impasses no mundo de hoje. E, se eu quiser elevar a minha análise a um plano filosófico, precisarei ter, então, uma visão de conjunto da história da humanidade, quer dizer, da dinâmica da realidade humana como um todo" (Konder, pág. 37)

É importante salientar que existem níveis maiores e menores de totalidades que são inseparáveis. Por exemplo, peguemos a totalização Brasil, a sociedade brasileira.

Aqui há diversas totalidades: num nível de totalidade mais superficial, nós temos as suas leis, suas instituições, a estrutura do Estado; num nível intermediário, nós temos a sua história com a vida política, social e econômica; e num nível mais profundo, temos o seu modo de produção. Cada um desses elementos se interliga para produzir o todo.

"A modificação do todo só se realiza, de fato, após um acúmulo de mudanças nas partes que o compõem. Processam-se alterações setoriais, quantitativas, até que se alcança um ponto crítico que assinala a transformação qualitativa da totalidade". (Konder, pág. 38)"

A totalidade e a totalização são ferramentas importantíssimas para percebemos a realidade e as suas contradições a fim de superá-las - se quisermos superá-las. Esses conceitos são fundamentais para a fortificação teórica da práxis, já que é ela que fundamenta as nossas ações. Nos apeguemos a ela - sem deixar de lado o olhar crítico - para fazermos as mudanças necessárias.