Sobre a dialética parte I e II, por Bruno Oliveira

29/04/2020

Heráclito
Heráclito

A luta entre as classes se reflete também na luta ideológica. É evidente que a ideologia mais forte é a da classe dominante, já que como detentora dos meios de produção e, por conseguinte, dos elementos da superestrutura, ela produz uma narrativa que justifique a sua dominação.

Pensemos num dos conflitos mais antigos e significativos do pensamento, em duas estruturas de conceber o real: a dialética e a metafísica. Esse conflito nos remete a Grécia clássica.

Heráclito de Éfeso, o precursor do pensamento dialético, em seus fragmentos afirmava que tudo o que existe está em um movimento contínuo que propicia a transformação, ou seja, todas as coisas estão em constante mudança por meio dos seus elementos contraditórios. No cotidiano, percebemos esse movimento quando o dia se transforma na noite, quando o clima quente se transforma no clima frio, quando o novo se torna o velho, quando ao caminhar eu mudo de lugar no espaço e no tempo.

Esse era um pensamento perigoso para a classe dominante grega, já que estas estavam interessadas em manter duradouramente o que funcionava e não cabia na narrativa a ideia de que as coisas incessantemente mudam (o que implicava a mudança dos seus poderes).

Para essas classes, Parmênides, o pensador do estático, e sua maneira de pensar, a metafisica, apresentava ferramentas mais úteis para os seus interesses. Este filosofo concebia a essência do ser como imutável, e que o que percebíamos como mudança dos objetos nada mais era um do que um elemento superficial, da qual poderíamos descartar.

É assim que em comparação com a metafísica, a dialética ao longo da história foi relegada a um campo secundário, deixada de lado, mas não abandonada. Elementos e princípios da dialética sobreviveram em vários pensadores, entre eles Aristóteles, no período clássico, com a sua concepção do movimento da potência em ato; na Idade Média, Mirandola afirmava que o homem é um ser inacabado e que pode evoluir; e em Diderot, no Iluminismo, com a sua percepção de que o homem é um produto histórico da sociedade. Entretanto foi no período Romântico, mais precisamente com Hegel que ela ganhou sobrevida e espaço central na filosofia.

Sobre a dialética parte II - Hegel, trabalho e a superação dialética

Lukács, em Marx e o Problema da Decadência Ideológica, nos diz que Hegel foi o último suspiro da burguesia enquanto pensamento progressista e revolucionário. Mas após a superação das instituições feudais, a burguesia já bem estabelecida e hegemônica em diversos campos da sociedade (cultural, político, econômico, etc.), desaguou numa filosofia irracionalista, apregoada aos instintos.

Retornemos a uma das grandes questões do pensamento da qual Hegel se debruçou: a relação sujeito/objeto. O homem, segundo Hegel, é um ser ativo que está sempre interferindo na realidade. Mas a realidade apresenta contradições, problemas, dificuldades que se opõe as tentativas dos homens de molda-las. Podemos dizer que quem impõe o ritmo e as condições dessas transformações ao sujeito é a realidade objetiva, ou seja, o objeto. No plano histórico, o homem (o sujeito) pode modificar as atividades políticas e econômicas (objeto) - mas claro, sempre guardada as devidas condições.

Ao estudar a Revolução Francesa e principalmente a industrialização da Inglaterra, Hegel chegou à conclusão de que o trabalho é a mola propulsora do desenvolvimento humano. É o trabalho que proporciona ao homem um distanciamento da natureza. Mas é importante salientar que o trabalho para Hegel não era tanto o manual, o físico, mas sim o intelectual.

Segundo Leandro Konder, em seu livro O que é a dialética, "o trabalho é o conceito-chave para compreendermos o que é a superação dialética" de Hegel. Tal conceito, que nos ajudará a compreender como funciona a dialética no pensador idealista alemão, perpassa por três sentidos que irão caracteriza-lo: negar, erguer e elevar.

Para Hegel, a superação dialética simultaneamente ocorre quando: 1) há a negação de determinada realidade; 2) ao erguer (no sentido de conservação) a parte essencial dessa negação; 3) e há a elevação a um nível superior. Talvez possa ficar mais claro com um exemplo. Pensemos no que ocorre no trabalho da confecção de um pão:

"(...) a matéria-prima é 'negada' (quer dizer, é destruída em sua forma natural), mas ao mesmo tempo é 'conservada' (quer dizer, é aproveitada) e assume uma forma nova, modificada, correspondente aos objetivos humanos (quer dizer, é 'elevada' em seu valor). E o que se vê, por exemplo, no uso do trigo para o fabrico do pão: o trigo é triturado, transformado em pasta, porém não desaparece de todo, passa a fazer parte do pão, que vai ao forno e - depois de assado - se torna humanamente comestível". (Konder, pág. 25 e 26)

Essa maneira abstrata de conceber o trabalho, levou Hegel a percebê-lo apenas na perspectiva positiva, no sentido da criatividade do trabalho, sem aprofundar o lado negativo, as deformações que aconteciam na sua realização material, social. É por isso que Hegel não conseguiu se aprofundar nas questões ligadas a alienação do trabalho na sociedade, especialmente, na capitalista.

Esse aprofundamento ocorrerá com Marx. E qual é a relação desse pensador com a dialética?