Sérgio Moro, um curioso Calabar, por Victor Leandro

04/05/2020

Mais uma vez, é preciso dar razão a Marx. A história se realiza primeiro como tragédia, e depois como farsa. Como prova disso, está aí o exemplo de Sérgio Moro, que revisita Calabar, porém desprovido por completo do apuro trágico que acompanhou a personagem colonial. Resta-lhe somente, para colocar Chico Buarque na roda, um certo elogio da traição. Ou quem sabe nem isso.

Calabar era um indivíduo inteligente e perspicaz. Reconhecido por seus talentos, foi cobiçado tanto por forças portuguesas e holandesas, tendo optado ao final por auxiliar estas, no que foi considerado um traidor da pátria. Não é necessário dizer que, como brasileiro, ele não devia qualquer reverência aos colonizadores. Assim, sua mudança de lado soa mais como o ato de um sujeito liberto e pouco afeito aos signos da subordinação aos opressores.

E quanto a Moro? Acusado de traição pelo antigoverno, ele argumenta que há lealdades maiores. Sem dúvida. O problema é a quem ele as presta. Ao judiciário? Aos conglomerados empresariais? À grande mídia? O mais provável é que apenas a si mesmo. A considerar tal ponto, seria possível dizer, ele encontra semelhanças com o histórico alagoano. Contudo, este nem de perto passou pela desfaçatez do primeiro, tampouco lhe foi dado um destino farto em benesses e honrarias.

Sérgio Moro é um Calabar desapercebido, sem substância, do tipo pós-moderno.

Primeiro como tragédia, depois como farsa. O colonizador patético agora são os Estados Unidos. Sim, é um ridículo enredo. Diante dele, só nos cabe evocar com brio a moral dos cabanos.