O marxismo de Sísifo, por Victor Leandro

22/05/2020

Não raro o fastio ocupa os que fazem a luta socialista. Os gestos, por mais efusivos que sejam, parecem tão somente ecoar inúteis num grande vazio. Tal sensação fica ainda mais intensa na pandemia insana de nossos tempos. Diante de Trump, Bolsonaro, terraplana, vírus, Guedes, ultraliberalismo, a tendência é que qualquer militante esmoreça frente à impossibilidade imediata de uma transformação estrutural. O cansaço é a medida autoprotetiva justa e emergente contra esse escarcéu de coisas destrutivas.

Mas, será que essa solução existe de fato? Pode um socialista verdadeiramente capitular por conta da miséria do mundo e refugiar-se na indiferença? É muito difícil. Por mais que tente, a opressão dos mais pobres seguirá nele como algo inaceitável, e sua tendência incorrigível será retornar sempre ao combate em favor dos interesses do povo.

Daí que a única atitude válida para o revolucionário é assumir sua condição trágica. Mesmo sem horizonte, ele deve seguir adiante em sua tarefa de produzir uma outra vida comum, sem se importar com os conseguintes diretos de suas ações. Nesse processo, é que ele deve encontrar a energia necessária para ampliar suas forças, as quais, independente do resultado final, rumarão para tornar a melhor possível a realidade a sua volta.

Se, como afirmou Camus, mesmo diante da natureza perenemente inglória de sua tarefa, é preciso imaginar Sísifo feliz, também no socialismo devemos considerar alegre a missão de fazer rolar a pedra da história, ainda mais porque estamos acrescidos de uma vantagem importante sobre o mito, que é a de não fazermos parte de um tempo cíclico. Desse modo, sua tendência é que alcance o cume. Que a burguesia trema ante a ameaça de seu declínio.