Rosa Bonheur: uma transgressora nas artes plásticas, por Luana Aguiar

30/06/2020

O que, na história, sempre pareceu "natural", inerente ao ser masculino - como a arte, a criação, a intelectualidade - para as mulheres foi preciso muita luta para que pudessem ter acesso aos mesmos - ou similares - mecanismos de produção artística, já que muitas vezes lhes era negada até mesmo a educação básica. As mulheres, por muito tempo, foram vistas como impróprias ao mundo das artes; pois, arte é criação, e criação é masculina.

Elas poderiam ter apenas papel secundário e passivo como musas inspiradoras e modelos, replicar obras já consagradas de outros artistas ou, no máximo, se utilizarem da arte para o âmbito privado, apenas para os seus: pinturas de vasos e buquês de flores, natureza morta, esboços de crianças da casa. Jamais carregar uma identidade artística; concorrer com um artista homem era inadmissível.


Algumas mulheres, como Rosa Bonheur, enfrentaram os preconceitos e tabus do período em que viveram e conseguiram se estabelecer como artistas. Determinada e comprometida com a arte, foi a primeira mulher a atingir o nível de fama internacional, que conquistou ainda durante sua juventude.

Bonheur teve uma educação privilegiada e recebeu incentivo da família para as artes, algo bastante incomum no período - que se deve a seu pai, Oscar-Raymond Bonheur, também pintor e adepto do cristianismo-socialista, importante figura no seu desenvolvimento. Uma de suas obras mais famosas, La labourage nivermais, le sombrage (pintura que abre este artigo), foi exibida em 1848, quando tinha 26 anos, no famoso Salão de Paris. 

Apesar dos incentivos da família, Bonheur não esteve isenta, é claro, dos preconceitos e barreiras levantadas às mulheres de sua época. Segundo Michelle Perrot, "suas telas imensas representando animais são um desafio aos cânones da arte no feminino". Seu comportamento, assim como suas pinturas, não representavam o "esperado" de uma mulher na sociedade: fumava, não era casada, andava sozinha na rua, costumava usar calças e pintava quadros realistas de homens e, sobretudo, animais. Além disso, frequentava ambientes considerados "impróprios" para mulheres, como currais, feiras e corrida de cavalos, onde estudava as anatomias animais para suas obras.

Visitantes distraídos podem, erroneamente, pensar ser de autoria masculina a obra A feira dos cavalos, no Museu Metropolitano de Nova York, já que, por muito tempo, estivemos acostumados a atribuir obras excepcionais à mão fálica. Além disso, trata-se de uma obra com mais de 150 anos; "que mulher no século XIX teria a audácia de pintá-la?", poderiam se questionar.

Rosa Bonheur é considerada uma das maiores pintoras do XIX, não só da França, mas de todo o mundo, e seu talento, ambição e dedicação às artes são inquestionáveis. Hoje, se podemos exercer a profissão de artistas, devemos, com certeza, grande parcela à Bonheur, uma das maiores mulheres transgressoras nas artes plásticas.