Resenha: "O bife e a pipoca", de Lygia Bojunga, por Luana Aguiar

30/07/2020

 "O bife e a pipoca" é a segunda narrativa do livro de contos Tchau (1984), da escritora rio-grandense Lygia Bojunga, em que é contada a história de amizade entre dois meninos, Rodrigo e Tuca. O primeiro é um menino de classe média alta, que estuda em uma escola particular, mora em um condomínio de luxo e possui todos os privilégios de uma vida burguesa. Já o segundo, Tuca, é um rapaz de origem pobre, que precisa trabalhar para comprar comida para a família, mora na favela em uma casa pequena com mais dez irmãos e possui uma mãe alcóolatra.

Quando Tuca, por ter tido o melhor desempenho de estudos na sua antiga escola, ganha uma bolsa e passa a estudar na mesma escola de Rodrigo, dá-se início ao contato entre os dois personagens e, também, suas distintas realidades. Os dois se tornam amigos, passam a estudar juntos no horário do recreio - já que Tuca estava com dificuldades para acompanhar os conteúdos da nova escola - e Rodrigo, cujo melhor amigo havia se mudado de cidade naquele ano, encontra uma nova companhia. A princípio, não há muitos problemas no relacionamento dos dois jovens; no entanto, o narrador lança, ao leitor, elementos que demonstram as desigualdades sociais pelas quais os dois estão imersos - simbolicamente, por dois alimentos: o bife e a pipoca.

Tuca, todos os dias, desejava comer um bife que via as pessoas comendo em um restaurante, em que passava quando ia trabalhar lavando carros; ele as admirava e ficava por horas em frente à vitrine do estabelecimento até precisarem o mandar embora. Esse desejo pelo bife quase foi realizado quando Tuca visitou, pela primeira vez, a casa de seu novo amigo, Rodrigo; mas, por infortúnio do destino (ou de sua própria avidez em devorar a carne), o bife lhe escapa o prato e a oportunidade é perdida. 

Depois desse episódio, os dois vão à casa de Tuca para comer pipoca. Nesse momento, Rodrigo tem o primeiro contato com uma realidade que, até aquele momento, era mascarada por sua bolha social e, novamente, é apresentada a relação com a comida - neste caso, a pipoca, que simboliza a pobreza em que o amigo vive, mas que, novamente, não conseguem comer, por conta da mãe de Tuca, que estava bêbada e havia jogado a panela no chão do quarto.

Embora Lygia Bojunga seja, geralmente, identificada como uma escritora de livros infanto-juvenis, sua obra não é exclusiva a uma faixa etária. Na realidade, Bojunga escreve sobre crianças e não - apenas - para elas. É extrema a sua sensibilidade sobre o universo infantil e a relação deste com o mundo que o cerca. O conto é narrado a partir de uma linguagem objetiva, no entanto, muitas vezes, introjetada por essas perspectivas infantis e pueris, na qual nem mesmos os personagens conseguem enxergar as suas próprias violências físicas e simbólicas ali representadas, mas que, em algum momento, as questionam, a seu modo de ver o mundo.

Analisando essas situações aqui descritas, podemos pensar que o fato de Tuca não conseguir comer o bife (que simboliza a riqueza, os privilégios), assim como Rodrigo não ter conseguido comer a pipoca (que simboliza a pobreza), representa um abismo entre as duas identidades, as duas esferas sociais, mesmo que a amizade tenha prevalecido ao final, pois as desigualdades entre os dois meninos e seus mundos permanecem as mesmas.