Quem não entende de política?, por Ismael Gomes

01/09/2020

Uma das piores desculpas que alguém pode usar para não se manifestar contra o atual desgoverno, ou não romper de alguma forma com a ordem vigente, é a de que não entende de política. Usada até por reitores de universidade, além de ser uma justificativa sem validade, reforça o discurso de uma elite mesquinha que se coloca como única detentora de todo conhecimento, enquanto o que só tem mesmo é a perversa intenção de manter para si o monopólio da fala.

Em sentido amplo, tudo o que fazemos é política. Isso é óbvio. Porém, não é raro ouvir pessoas dizendo que não devem ou não podem se intrometer em assuntos públicos por suporem que nada entendem a respeito. Isso é aceitar, portanto, proposições escravocratas como a do astrólogo, guru de Bolsonaro, por exemplo, para quem é inaceitável que alguém fale publicamente sobre qualquer coisa sem ter antes estudado o tanto que ele supostamente estudou. Assentir com isso é como participar de um jogo sórdido cujas regras foram estabelecidas apenas pelo adversário. Além do mais, mesmo que estejam se referindo apenas à falta de um conhecimento técnico, esse subterfúgio sugere, então, que quem esteja falando na presidência, nos ministérios e na grande mídia, sejam entendedores de tudo, o que, como vemos diariamente, passa longe de ser verdade. 

O palácio do planalto, tem sido, nos últimos anos, a sede da ignorância. Está sendo ocupado por quem nem sequer esconde seu total analfabetismo político. Também é difícil encontrar pessoas mais ignorantes do que os comentaristas políticos de conhecidas rádios e telejornais. Eles próprios confessam abertamente sua vagabundagem intelectual. Um exemplo disso são as lideranças daquele velho "movimento" de direita que diziam querer um Brasil livre, foram à casa de Bolsonaro declarar apoio a ele, depois tentaram mostrar arrependimento por ter apoiado uma pessoa tão estúpida e inconsequente, mas continuam falando que agrotóxico não faz mal à saúde, que violência nada tem a ver com desigualdade, que deputado deveria trabalhar menos etc. Ou seja, em matéria de ignorância, o pseudo-presidente e essa pseudo-oposição ainda se irmanam. 

É evidente que não estão apenas declarando gratuitamente seu vazio cognitivo. É também o psicopoder em cena, a tentativa de controlar nossas emoções, a estratégia de manipulação de massa para desviar o foco de pautas importantes. De qualquer forma, eles estão falando. Querendo manter só para si o poder de falar, tomando conta dos meios de comunicação, tentando ditar o que pode e o que não pode ser dito.

Querer falar mais do que eles, ainda que não se tenha maiores conhecimentos a repeito de política, não é valorizar a ignorância. Não é colocar tudo ao nível de uma Damares Alves ou de um Ricardo Salles. Estudar é transformador. Trata-se, no entanto, de entender que quem não tem condições de estudar também pode falar contra o atual desgoverno, que não precisamos saber só o que a direita determina como importante de ser sabido, que política não é só partidária ou eleitoral, que ao longo da história, grandes revoluções foram feitas por pessoas que não tinham absolutamente nenhum conhecimento profundo sobre administração pública, que na política o agir é um critério para obter a verdade, que há assuntos que prescindem de um conhecimento técnico, mecânico, instrumental, estando mais relacionado ao senso de realidade, à sensibilidade em relação ao que vivemos no dia a dia. Quem mais pode dizer se é possível ou não resignificar o país do que quem está tentando? Quem é que mais entende de fome do que quem a sente?

São várias as formas e ferramentas pelas quais podemos protestar, expressar nosso anseio por um Brasil sem fascismo. Uma delas é a palavra. Façamos bom uso dela mesmo que às vezes tenhamos que falar o óbvio. Afinal, se falar não fosse importante, Bolsonaro não mandaria ninguém se calar, não ameaçaria encher nenhuma boca de porrada.