Quarentena, memória e inquietação, por Luana Aguiar

22/04/2020

Diante do estado de calamidade pública já declarado em Manaus, procurei ler algo que estivesse distante de minha realidade mais imediata, algo que pudesse distrair o sentimento de impotência e inquietação causados pelo isolamento. Válvula de escape, é o que dizem. Foi quando li Maus, de Art Spiegelman, uma graphic novel sobre a história de Vladek Spiegelman, pai do cartunista e polonês judeu sobrevivente do Holocausto. Na obra, através de gravações de conversas realizadas com o pai, Art revisita as memórias de Vladek sobre a segunda guerra e sobre sua mãe, Anja Spiegelman, também sobrevivente dos campos de concentração, que se matara na década de 60. Todos os personagens são representados por animais: os judeus são ratos, os alemães são gatos e os poloneses não judeus são porcos.

A tentativa de me desvencilhar dos atuais acontecimentos, no entanto, foi um tanto fracassada. Enquanto leio sobre o assassinato em massa nos campos de concentração, uma grande cova comunitária é aberta no cemitério do Tarumã, a apenas alguns quilômetros de onde estou, para agrupar vítimas do Covid-19. Enquanto tento digerir as memórias narradas e ilustradas sobre Auschwitz, as humilhações e dores inimagináveis sofridas pelos judeus na década de 40, lembro das inúmeras falas inescrupulosas proferidas pelo presidente brasileiro e seus seguidores, movidos pelo ódio a um inimigo invisível, publicadas diariamente nas redes sociais.

Não, não procuro comparar as vítimas do Holocausto com as mortes pelo coronavírus, suas origens são distintas, é claro. Porém, não podemos negar que vivemos em tempos de ódio, estupidez e negligência humana, e os excessos de mortes causados pelo vírus... esses, sim, terão um culpado.

E a inquietação, agora, é dupla: pelo passado e pelo presente.