Procura-se um leitor, por Victor Leandro

24/07/2020

Nunca foi tão fácil poder ser lido. Nunca foi tão difícil encontrar quem leia. Redes sociais, blogs, e-book, autopublicação. Todos os meios de divulgar-se estão disponíveis. No entanto, nada disso significa que haverá uma troca de ideias verdadeira. Ao contrário, o mais provável é perdermo-nos no emaranhado do hipertexto.

Na cultura de massas, podem ser muitos os motivos disso. Porém, é curioso ver como o fenômeno ocorre mesmo no círculo limitado da comunidade da escrita. Em cada lugar, há sempre um ou mais desconhecidos que escrevem. Contudo, a disposição muda quando o trabalho é o de ler. Nesse caso, mantém-se o conservadorismo canônico. Só vale, se muito, dar uma olhada naquilo que está legitimado pelo mercado e pelas cátedras. O mais são textinhos de internet, como os que ele próprio realiza.

E assim, a utopia se despedaça. Os meios estão aí, porém não seus agentes. Numa comunidade ideal, todos poderiam ler e serem lidos, e fazer disso uma experiência. Mas quem se importa? O que vale é deixar o fluxo seguir desse modo para, quem sabe, quando se atingir o vazio êxito do reconhecimento, ser satisfatório vangloriar-se que rompeu também essa fronteira.

A sociedade de escritores torna-se assim uma autêntica quimera, um diálogo sem ouvidos, que nem Bradbury pôde prever. Em seu romance, cada qual memorizava uma obra-prima do passado. Já aqui, todos só se lembram do que dizem, e as vozes simultâneas conflagram a ruína dos sentidos. Mas, estranhamente, seguimos contra o silêncio. Renegamos o único válido caminho. Triunfo de Narciso.