Poemas de Aprendiz - Não é um poema sobre pandemia, por Ana Bentes

15/06/2020

Não é um poema sobre pandemia,

O "assunto" e "gênero" pouco convêm...

É um poema sobre vidas tiradas de forma calada

Cujo ao assassino nunca será imputado crime algum.

Na cadeia, nunca porá seus pés, e as algemas passaram longe de seu pulso...


Não é um poema sobre pandemia,

É um poema sobre ausência de despedidas...

Onde enterrar o próprio pai, se torna irresponsável e egoísta...

Numa sociedade doentia...

A morte é banal, corriqueira e dolorida...

Assim! Fez-se desde o princípio,

Mas agora, ela é fria mórbida e pálida:

Numérica, algébrica e alguns casos, viram geométrica...

É só mais um setor em um gráfico de pizza.

Passando no jornal das nove, em tom de melancolia.

Ainda bem que você desconhece a autoria...

Porque, lá no fundo é imprecisa...

Fome ou vírus?

Quem há de saber?


Não é um poema sobre pandemia,

Tirando o direito de meu falecido pai...

Virar estatística naquele mesmo jornal das nove...

Porque seria o melhor para o país...

A morte de meu pai, poderia momentaneamente, assustar.

Uma pobre Senhora do Alphaville.

No chá da tarde rotineiro...

Causaria terror, oh! Meu Deus! Existem pessoas, morrendo em meio uma pandemia.

Não é um poema sobre pandemia,


É um poema sobre o emprego a deriva no mar de Apatia...

No qual o trabalhador extasiado se põe a escolher:

Morre hoje, de vírus!

Morre amanhã de fome!

Morre hoje, pelo bandidos!

Morre amanhã pela polícia!

Que era para nos proteger,

Contudo, eu a temo cada vez mais...

Desculpe-me bom policial,

Mas é difícil confiar em você...


Não é um poema sobre pandemia,

É um poema sobre o valor da vida...

De todas as informações que eles me negam...

A que mais falta fez, foi saber que, a minha vida valia.

Que eu não podia ser morto por acidente...

Nem parados por regalia.

Que era errado me seguir no comércio da esquina...

Que eu ser sempre o suspeito, não era má sorte...

E que os meus deuses, não merecem ser queimados pelo fogo da Inquisição de sua intolerância...

Somos todos humanos, mas ele sempre será suspeito, e eu antes de qualquer crime já estou condenado.


Não é um poema sobre pandemia,

É um poema sobre estudantes ao acaso jogados...

E o ministro falando sobre vitimização.

Estudo da forma que dê...

E se não der, os perdoe!

O sistema não foi feito para corrigir injustiças...

A música popular a realidade já dizia.

É que o de cima do sobe, e o debaixo desce.


Não ia fazer um poema sobre a pandemia,

E fazê-lo, não me atrevi.

Todos os problemas já estavam escancarados à vista...

E se você não percebia

Devia tomar cuidado, com a falta de empatia.

Isso, agora só incomoda!

Porque a crueldade da omissão é pública...

E tira a sensação de evolução da humanidade

E abala sua farsa de intelectualidade...


Peço nesses últimos versos, a volta da normalidade.

A normalidade, que o negro não morre por ser negro...

Em que o pobre não precisava passar fome.

E que a mulher não era violentada...

Na verdade, eu não peço normalidade nenhuma,

Mas não sei, se sou digno de tais petições.


Concluo com os atemporais versos de Belchior

"Não se preocupe, meu amigo

Com os horrores que eu lhe digo:

Isto é somente uma canção...

A vida realmente é diferente.

Quer dizer, ao vivo é muito pior".