Poema: Gosto da Cozinha, por Larissa Ferreira

29/08/2020


Gosto da cozinha.

O que é cozinhar um prato

Sem cebolas e alhos?

Gosto de cortar cebolas.

O corte que arde os olhos 

E as lágrimas escorrem.


Gosto da cozinha.

Ninguém percebe que

O que está sendo cortado

É na verdade minha alma.

O corte que arde os olhos

E as lágrimas escorrem.


Não sei o que foi cortado primeiro:

As cebolas ou a alma?

Mas as duas estão repicadas 

Na bancada da cozinha,

Cortadas por mim.


Sim! Eu cortei minha própria alma.

As pessoas? Não. Não foram elas.

As pessoas desse mundo

Serão sempre imperfeitas e maldosas!

Eu aceitei cortar onde elas mandaram...


Cortei-me toda em brunoise

E continuo me cortando 

Até não sobrar nada!

Nem um átomo, nem uma partícula subatômica!


Até virar um pó invisível

Que arde o olho

Que arderá o olho de outras almas.


E tudo será desintegrado

No ardor do sofrimento.


Até que as lágrimas lavem 

As dores paralisantes.


E nasçam novas almas 

De matéria impossível de cortar,

De matéria invisível 

sem lágrimas.