Passagem ao imemorável conhecido no itinerário das lembranças, por Victor Leandro

26/04/2020

Lamentamos esquecer, tememos a memória.

Ou pensamos ainda no que nos não é dado apagar-se do tempo. Viramos a curva e o acontecimento vem, agudo, inexorável, impassível, retumbante, conduzindo-nos sem titubeio por suas sendas obscuras. Más consciências, más lembranças, ideias de que acordados nos esquivamos, mas que surgem reluzentes no isolamento de nossas horas vazias e ermas. Doloroso inventário dos erros que se nos oferece com sinceridade impertinentemente assumida.

Imersos em suas litanias, o que mais nos afeta é a inutilidade do procedimento. Que me interessa saber de novo se fui ridículo, se pratiquei atos reprováveis e estranhos, se não pude mais ir a um lugar depois de agir de tal maneira? O que há que seja capaz de retificar esses malsucedidos? Melhor seria esconder sua imagem numa esquina qualquer da mente e deixa-la entregue ao mais absoluto abandono.

Entretanto, não passa de delírio pensar assim. O passado é um julgador intransigente.

É noite, e não há mais sonhos. Os olhos despertos enxergam um pesadelo constante. Lembrar não é também um refúgio seguro. O pior dos feitos é o que nos retarda o sono. Segue então a escrita até o amanhecer. Esta é a nossa forma mais útil de esquecimento.


*créditos da imagem - https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Mosaico_de_Mnem%C3%B3sine_(37852061952).jpg