Para quem ouvidos?, por Victor Leandro

20/08/2020

É bem conhecido o versículo que fala que não devemos dar pérolas aos porcos, bem como a regra que ele transmite. Dizer coisas sábias a ignorantes é uma perda de tempo. Contudo, ao que parece, ainda não ocorreu a ninguém imaginar o que os porcos achariam da frase. Pensemos. É um exercício que pode ser bastante instrutivo.

Claro, antes de mais nada, é bom lembrar que a escolha metafórica do porco é bem pouco oportuna, salvo para o trabalho que agora faremos. O porco é um dos animais mais inteligentes sobre quatro patas, sendo inclusive capaz de experimentar sensações como o tédio. Assim, se algum bicho de sua classe pudesse apreciar a beleza de uma pérola, por certo seria ele. Mas não dá para exigir essa compreensão de um provérbio milenar. Sigamos em frente.

Nisso, podemos pensar um porco moderno, do tipo pragmático-empirista, bem comum em paródias inglesas. Ele está lá, tocando sua vida tranquila, cuidando dos assuntos práticos de sua existência - como, por exemplo, os meios de livrar-se da opressão estúpida dos humanos - quando de repente aparece um sujeito qualquer cheio de um palavreado estridente, pronunciando ensinamentos que se travestem de argumentações solenes, ou de epifanias bem-humoradas saídas de uma mente genial, quando na verdade são proposições totalmente ridículas e inúteis. Obviamente, o tal sujeito tem nome. Pode ser Marcelo Tas, ou Silas Malafaia, ou Olavo de Carvalho, ou Sara Winter, ou qualquer outro ou outra que se prontifique a tomar essa posição arrogantemente pífia.

Ora, o que poderia pensar o porquinho esperto que ouvisse isso? Não deveria ele imediatamente perguntar-se: por que raios essa figura se dispôs a vir aqui falar essas bobagens para gente? Com que objetivo? Não vê ele que temos mais o que fazer além de ouvir suas sandices? Após tais interrogações, o mais provável é que ele fosse mesmo embora e lhe desse as costas, deixando ao tolo falante a tarefa de suportar a sua verborragia pretensiosa e autoindulgente.

Mas óbvio, provavelmente nem todos os animais agiriam assim. É meio que certo que os bois escutassem por inteiro a ladainha, e até achassem ali alguma razão. Mas aqui, talvez a fábula já tenha ido longe demais. De todo modo, a lição dialética dela é tão somente essa. Diante das pérolas que temos hoje, é melhor ficar sempre do lado dos porcos. De resto, o que vale é esconder os ouvidos.