Pandemia no Brasil – tragicidade popular como produto socialmente realizado, por Victor Leandro

04/01/2021

Não, de forma alguma, de nenhum jeito. Para os habitantes das camadas mais densas dessas terras, o vírus não tem o mínimo potencial para causar medo. Diante de sua ameaça, este não arranca mais do que risos, e, mesmo depois delas, o escárnio continua a permanecer, como a lembrar que nada mais se pode além de enfrentar o destino.

Também pudera. Tal povo não é uma nação qualquer. Desde cedo, ele foi cunhado no ferro e no aço das mais duras mazelas. Pobreza e miséria, violência cotidiana, bala perdida. Ausência de saneamento básico e serviços de saúde. Desemprego, humilhação e abandono. Considerando tais opressões diárias, seria até patético achar que se assustariam com uma pandemia. A classe média que fique com seu pavor viral.

Então, tanto faz se contrairão a doença na festa ou no ônibus lotado. Aliás, antes que seja na primeira. Ao menos isso ocorrerá entre prazeres e alegrias. Quanto aos intelectuais que não compreendem tais direções, azar o deles. Melhor seja que não saiam mesmo das casas e de seus supérfluos livros.

Quer dizer então que esses sujeitos não temem nada? Negativo. É a fome, assombrosa e constante, que os ameaça e lhes causa pavor. Fazem algo os governos para amenizar isso? De jeito maneira. Assim, resta a frase de Frank Miller, de que um homem sem esperança é um homem sem medo. Que venha o porvir.