País sem sangue, por Ismael Gomes

15/09/2020

Já sabemos que era mentirosa a alegação do governo federal de que os hospitais estavam registrando como mortos por Covid-19 uma maioria de pessoas que teriam ido a óbito por outras razões. A ideia, claro, era tentar tirar de si a enorme responsabilidade por tantas mortes, passar a impressão de que a pandemia não estava afetando tanto o Brasil, que estava tudo sobre controle e que, em vista disso, já poderiam sem demora reabrir o comércio com segurança. Essa falsa e irracional argumentação, no entanto, como quase todas as atitudes dessa organização criminosa disfarçada de poder executivo, acabou mais uma vez por surtir um efeito contrário do seu esperado.

Além de reafirmar em outras palavras sua vontade de querer lucrar a todo custo, quase que refutando até mesmo quem o apoiava e sem se preocupar com a morte destes, Bolsonaro chamou ainda mais atenção para o fato de que também houve aumento disparado no número de mortes por outras causas. Afinal, entre outros problemas, o Brasil está sem sangue e os dados são dos hemocentros de todo o país.

As doações de sangue, que já estavam em estado decadente, decaíram ainda mais com a chegada da pandemia. Para ficarmos apenas com alguns exemplos, em março, o hemocentro do Rio de Janeiro (Hemorio) já havia registrado a preocupante queda de 80% do seu estoque de sangue. Em Minas Gerais, segundo a assessoria do Hemominas, não houve como reduzir as demandas de bolsas de sangue, senão cancelando algumas cirurgias eletivas ou operações não urgentes. O hemocentro de São Paulo também afirmou estar sobrevivendo com o que tinha de reserva, que já não era o bastante. No Amazonas não é diferente. Desgovernado por um bolsonarista, o Estado também sofre com essa anemia. O Hemoam alertou a cruel queda de mais da metade de seu armazenamento sanguíneo.

É assustador. E há quem queira considerar normal essa brutal redução de sangue, tendo em vista as recomendações das organizações de saúde para que todos ficassem em casa. Acontece que tudo poderia ter sido evitado. Este que se diz presidente do país, já errando em querer recuperar a economia em detrimento da saúde, acabou não salvando nenhuma das duas, agravando a situação a tal ponto que agora não é mais possível revertê-la a curto e a médio prazo. Mesmo com a flexibilização do isolamento social, a demanda de transfusões sanguíneas continua altíssima. Ainda que tenha ocorrido diminuição da mortalidade por acidentes de trânsito, por exemplo, as agências transfusionais registram ainda grande quantidade de pacientes cirúrgicos e dependentes de terapia intensiva. Estamos sem ministro da saúde há alguns meses. Até o momento, o governo deixou acontecer mais de 130 mil mortes de pessoas que poderiam estar na seleção de possíveis doadores de sangue. Outros milhares também não podem doar por estarem contaminados. Não é possível fornecer sangue via internet, uma notícia triste para quem quer resolver tudo à distância. Parte da sociedade está de luto pela morte de seus familiares, fragilizada, mais vulnerável a outras doenças.

Uma outra parte do Brasil também está sem sangue, mas em outro sentido. Falta coragem, revolta, vontade de agir. Em outros tempos, em situação bem menos grave, não faltou indivíduos vestidos de verde e amarelo fazendo panelaço, tuitaço, estardalhaço de dentro de seus apartamentos, mas, agora, que nem deveriam ter saído de lá, descem para lotar shoppings e bares, desobedecendo medidas preventivas, muitos, inclusive, recebendo auxílio emergencial. Os sanguessugas estão por todo canto. Vemos vários em cima do muro. Tem bastante na classe pseudo-artística comprometida com o silêncio. Mas não podemos mesmo esperar algo promissor desses seres em cujas veias só circula mesmo a vontade de enriquecer.

Está difícil saber até quando o nosso país vai ficar sem sangue, sob os descuidos de pessoas sem cérebro e sem coração.