O socialismo dionisíaco, por Victor Leandro

10/07/2020

No mundo de hoje, quanto a nossa pessoalidade, não basta ser apenas marxista. É preciso ser também um tanto nietzscheano.

É que a ruptura com os paradigmas identitários nos confinou. O capitalismo nos tirou em muito a medida do comum. Isolados, precisamos escolher nossos próprios modelos de existência. Porém estes são o que a ordem hegemônica nos dá: individualismo, neurose, ressentimento, culpa, competição, exclusivismo, fraqueza. Nesse conjunto de ofertas, o caminho mais fácil é adoecer e retirar-se de qualquer projeto de construção coletiva de uma sociedade transformadora, sendo que o exemplo mais visível e paradoxal disso são aqueles que, mesmo dentro das alas progressistas, trazem para elas os signos de seu adoecimento, provocando cisões nada produtivas.

Para quebrar essa semiótica deletéria, somente a vontade de potência. É apenas trafegando nas vias do esquecimento dos maus afetos e da autocriação afirmadora que podemos destruir as mediocridades e mesquinharias que permanecem como resquícios do espírito burguês, e saltar para uma ordem mais livre. Que tal mudança individual se estenda para outros e se converta em ação socializada, eis o ponto de interseção com o marxismo.

Abandonar a miséria patológica, os pequenos ódios, as necessidades aviltantes. Tomar as desigualdades sociais sem ira paralisadora, mas como expressões a serem superadas de nossa estupidez. Aspirar à obra como grandeza. Esta é a tarefa pessoal dionisíaca que cada socialista deve exigir de si. Acaso pedimos um santo? Longe disso. É apenas Marx conduzido ao nome do sujeito.