O ruminante, por Victor Leandro

07/02/2021

-Isso, vieram me contar, disseram-me, o mundo agora é dos grilos. Ninguém suporta, é o que tenho ouvido. O barulho perturba tantos que sequer podemos falar, não é? E parece que eles gritam mais quando soltamos nossa voz. Alguém diz algo e eles cantam. Berramos, e eles se unem em uníssono. Mas eu já estava aqui antes. Na verdade, chego a pensar que estou desde sempre, a ponto de considerar engraçado que só agora estejam descobrindo os efeitos benéficos desse espaço soturno e de silêncio, onde não somos incomodados a não ser por nós mesmos e por nossa eventual irritação. Claro, no começo é entediante, e fica difícil pensar que vai ser dessa maneira para sempre, nós aqui trafegando nesse espaço curto, entre corredores estreitos que não permitem muito mais do que uma breve caminhada ou corrida. Daí que seja compreensível constatar quantos de nós preferiram subir de novo e ficar sujeitos aos bichos, no que depois enlouquecem com o seu inútil martírio. Sim, eles estão ficando doidos, seguramente. Um deles, contam-me, diz que começou inclusive a falar a linguagem dos insetos, passam o dia em colóquios ininteligíveis e que provavelmente só têm significado na sua cabeça. Mas, pelo menos segundo o que relata, as conversas lá giram em torno de reprimendas, o que eles tentam nos avisar é que somos desprezíveis. Não é para rir? Sempre achei que já sabíamos disso. Eu pelo menos, há muito tempo, e foi por essa razão que vim parar aqui. Uma pessoa se desentendia comigo e gritava: imbecil! Outra também, imbecil! E passei a considerar mesmo que o era, enquanto as que me xingavam juravam nunca o ser. Eu não acreditei, por certo, mas vi que no meu caso elas tinham razão. Então me recolhi. Sozinho nesse cômodo, a imbecilidade não pode aflorar, é algo curioso, nunca somos idiotas sozinhos. É por essa razão que me oculto, e ficaria escondido por décadas não fossem vocês se refugiarem e virem do meu lado me dizer que, lá por cima, o mundo anda bem pior do que quando o deixei, simplesmente há uma profunda confusão sonora, ninguém se entende mais e nem consegue eliminar a causa que despontou quando resolveram pôr abaixo um bom punhado de mato sobre terra. Dessa forma, tenho companhia, e vou sem dúvida agora me lembrar de que sou o mesmo imbecil de antes, sim, não mudei nada e nem aprendi coisa alguma, porque afinal não se aprende, apenas se cala ou não, porém ninguém se altera, disso eu tenho certeza. Não conheço, ou melhor, não conheci um único sujeito que tenha mudado, tornado-se algo de mais alto a partir de sua, como posso dizer, trajetória de vida. São os mesmos, invariavelmente, embora tenham comprado a capa e a espada mais bonitas. Diante deles, o pior que se pode fazer é os amar. Sim, digo a você com todas as letras, isso aprendi aqui embaixo, amar é um veneno mútuo. Você dá amor para alguém, e a pessoa logo sente que é melhor, e atinge o direito a seu ver inalienável da perversidade conspícua. Distrata, age como se fosse a grandeza do mundo, só que não é, pensa-se superior, só que não é, apenas alguém teve o azar de amá-la, de lhe dar o seu afeto, mas convenhamos, isso não é nada. Na vida, toda hora a gente cisma com todo mundo, é o que penso e aprendi aqui também. Amei e hoje quem amei é um ser nulo, só uma pantomima medíocre de si mesma. Entretanto, chega de momentos líricos.

Verdade é que você veio para cá, retornou, não suportou os grilos e quis voltar. Mas por quê? Ah, então eles agora estão comendo as pessoas? Não sabia, é uma novidade para mim. Que bom. Já estava na hora mesmo da humanidade ser extinta. Pena? Teria se fosse eu a ter de dar essa notícia. Como sou quem a recebe, não ligo. Já estava pronto, ao menos para isso estava. Como falei, tudo o que fizemos foi desperdiçar nosso tempo. Não todos. Certamente houve quem o aproveitou. Mas bem, estamos protegidos, e ainda nos resta alguma saúde pela frente. Feche a porta, e levará uma longa era até que o barulho seja para nós insuportável também. Sente-se, fique calmo. Ouça uma música, pegue um livro. Uma hora você relaxa inteiramente. Aqui temos tudo de que precisamos. Como? Tudo bem. Não é causa de alarde isso. Então vá para o quarto e suicide-se. Tem uma corda no banheiro. Às doze horas chamarei os outros para assistirem a sua cremação. Espero que tenhamos uma fogueira alta e bem bonita. Sim.