Quando Hemingway Chorou, por Bruno Oliveira

09/04/2020


Os dias em Cuba são quentes e tudo respira à revolução. Mas comigo é diferente. Desde quando minha mãe enviou o rifle que meu pai usou para se suicidar, penso incessantemente no rinoceronte. Já faz uns quatro anos, ainda em algum lugar da África, que eu o vi. Alguém já tinha me falado na sua grandeza, na dureza da sua carne e na beleza de seu chifre. O que me impressionava, de fato, não era nem esses detalhes, mas a dificuldade da empreitada, então quando me lancei, fiz sem esperança.

Juan sempre me dizia que eu tinha escrúpulos em excesso. Isso é em parte verdade; eu sempre titubeava antes de infligir um tiro no meu alvo; me molestava o gesto. E foi numa noite como essa que o grande animal me achou, como se soubesse o que eu queria. Estava eu, só, escrevendo em frente à minha fogueira, quando o peso de sua grandeza, multiplicada por uma corrida veloz de impulso, me atingiu de raspão e fui lançado longe. Me ergui não com pouca dificuldade, enquanto ele se arranjava para outro ataque, à procura de meu rifle. Disparei, ele não caiu; dei outro tiro, não caiu novamente; mais um tiro, dessa vez na testa, e o infeliz continuava. Acredite, ele não corria; suas patas sequer triscavam o chão, sua pele branca brilhava como placas de neon que rimavam a lua. A última coisa de que lembro é de seu imenso chifre atravessando e se alojando no meu crânio. Nunca mais cacei; e desde esse dia, há um rinoceronte na minha cabeça, fazendo dela a sua casa, a me seguir. Se olho no espelho, o vejo; se falo, falo nele; se escrevo, escrevo sobre ele; se sinto, não sei mais quem é quem.

Hoje, sentando nessa ponte olhando meu reflexo no rio que escancara o rinoceronte na minha alma, decidi arranca-lo de mim. Acho que o presente da mamãe ajudará, mesmo que meu dedo julgue um incesto puxar esse gatilho, enquanto meus olhos fechados sinceramente choram.