O retorno às aulas no Amazonas ou como ir à escola sem fazer educação, por Victor Leandro

29/07/2020

Quando temos dúvidas sobre o sentido das palavras que usamos, muitas vezes nos ajuda recorrer à etimologia. Educar, por exemplo, vem de educere, que significa conduzir para fora. Mas o que é esse fora? É nada menos que a experiência de mundo, a qual nos permite movimentarmo-nos e atuarmos nele de maneira criadora e efetiva.

Como sabemos, a realidade pandêmica impôs a nós sérias restrições de movimento. Frequentar espaços, principalmente aglomerados, tornou-se um ataque inaceitável contra o princípio geral humano de conservação da vida. Contudo, isso não quer dizer que o ir para fora esteja bloqueado por completo. Há muitas maneiras de ingressarmos na exterioridade, no que nos encontramos no momento de pensar e produzir esses outros percursos.

Mas nada disso transita na consciência dos que ora propõem o retorno às aulas no Amazonas para o mês vindouro. Molarizados como estão em suas mentes protocolares, estes ignoram completamente os impedimentos materiais, afetivos e intelectivos que anulam qualquer possibilidade de promover uma educação de fato transformadora na sala de aula no tempo presente, prendendo-se a formalidades puramente acessórias - em que, além da tradicional e carcomida chamada, há todo um plano disparatado para (imaginem) avaliar os alunos e aferir o nível de aprendizagem na quarentena - que nada mais fazem do que preencher relatórios e satisfazer o gosto administrativo dos altos e baixos gestores, porém sem relação alguma com os propósitos próprios da prática de construção de conhecimento.

Desse modo, em vez do estudante ir para fora, é só o vírus que vai para dentro. E segue o estado em seu caminho de doença e abandono. Porém, não importa. O que vale são os diários preenchidos. Eis aí a escola da vitória do modelo formalista liberal. Eis aí a miséria da educação que recusa Paulo Freire.