O real no parque, a imagem na academia, por Victor Leandro

27/08/2020

No parque encontra-se o social. Nele a vida se movimenta tal como é em sua forma livre. A entrada não é definida pelo econômico, tampouco sua atividade se dirige conforme a ordem de patrões. Ali, tudo corre da maneira como pretendem aqueles que o fazem e que lhe dão o sentido de ser. Está extinta a ordem das classes e de seus signos distintivos.

Enquanto isso, na academia, nada está bem. Obcecados pela aparência, os indivíduos nem mais pensam em correr. São seus corpos que correm apenas. De igual modo, o narcisismo os consome a tal ponto que sequer estão ali para serem vistos. No emaranhado de espelhos, eles observam a si mesmos somente, admirando os trejeitos que realizam para salientar seus músculos, num exercício patológico de autoafirmação, mas que lhes é necessário e também custeado a valores que os fazem sentirem-se exclusivos.

Já tranquilas, as pessoas do parque caminham. Ou dançam. Ou jogam bola. Ou brincam com as crianças. Ninguém ali com tempo para acompanhar sua própria movimentação, todos embebidos na aura pulsante e coletiva do universo que transpira. Ao terminarem, seguem para casa serenos, ou pausam um instante a mais à espera do novo que sempre aparece, seja num semblante humano ou numa cena totalmente imprevista.

O parque é o público, é a polis, é a comunidade saudável em ação. Diante de sua potência, as caixinhas fechadas da atlética parecem mais uma triste pantomima, com suas normas estranhas e fotos exibicionistas. Saiamos dela, e teremos de fato um corpo integrado ao mundo. Caem os fantoches desenhados. Entra a mente ativa.