O quarto vazio, por Victor Leandro

17/11/2020

Para falar de um quarto vazio, é preciso estar dentro dele.

Ou de outro modo não é mais o que então se mostra. Fala-se, porém de fora. Porque lá no recôndito o que há é ainda uma conformidade de lembrança, as palavras faltadas e a litania dos erros. Um ruído, e vem a onda ou nuvem nomeada solidão arremessar-nos por algum dos cantos, a dizer que estamos agora no lugar e aqui falhamos, o que dessa forma nos põe também a ruminar justamente aquele dia, aquela tarde, aquela ausência. Ou do que sobra, o ter sido exsudado e subtraído, esparso fragmento na lassidão de chuva e de relâmpago. Quisera falar, mas não ouve quem o ouviu. Restou-lhe permanecer injustiçado e taciturno, rebentando as pedras amontadas nas esquinas de seu solilóquio, no que por certo se trata que tudo são só nós que pensamos. É verdade que sim. Porém assim conjuga o sumário daquilo que está guardado além dessa janela que dá para o nada e o som depressivo que se revolve no vagar da noite que anda escura, mais escura ainda em nós, para os quais a ideia concedida é tão somente um apenas dito. Fui esquecido, largado em completo, e não tem mais a quem as lágrimas possam-lhe cobrir.

O quarto agora se expande, chega à sala, à cozinha, ao mundo inteiro. O rio afoga e ninguém pode nos salvar. Tarda mais que a hora o instante de toda a quietude sombria.