O paradoxo de um leitor, por Victor Leandro

30/05/2020

É uma história lamentável, sem dúvida, e pouco ou nada elucidativa. Contudo, talvez ajude em minha defesa. Tenet, o rapaz, lia com sofreguidão. O que me relatam é que dia e noite. Não sei, não sei. As comunicações que me enviaram a seu respeito é que davam conta. Quando o conheci, já estava em forte queda. Nem entendo por que imaginaram que seria útil minha ajuda. Não sou médico, não cuido de doentes. Também não tenho respostas mágicas para os enigmas do mundo. O que faço é tão somente pôr palavras no papel. Aos que me perguntam, respondo com toda sinceridade a esse respeito. Sou apenas um escritor de ficção.

Mas recordo-me, é estranho me lembrar, de quando fui ao encontro dele. Como um bom cínico, aquele que vive como um cão e com nada se importa muito, pensei que seria uma experiência como tantas, ou que teria, tal qual em outras ocasiões, uma boa personagem para um de meus contos. Ah, sim, é o que dizem de minha obra, que virei contista. Na verdade, isso é o maior dos enganos. Eu fiz narrativas curtas porque não tinha mais tempo, nem paciência. Confesso, a escrita há muito me cansou. Quando pude escolher, sempre preferi exercitar-me ou viajar para longas distâncias.

Ah, mas não me deixe digredir. Voltemos ao garoto. Repito, quando o vi, já estava nas últimas. Não se levantava, e não via mais propósito em manter os olhos abertos por nenhum mais instante. A mãe me recebeu como se eu fosse uma figura salvadora. Se algo poderia ainda animá-lo, seria a minha presença. Mas claro que eu não era. E foi isso que me disse sua irmã. A história conta que escritores nunca fizeram nada de válido em suas existências, foi o que me assegurou. Ela já cuidava dos preparativos para o enterro.

Entrei no quarto, ele me observou sem surpresa. Tinha como certo que eu viria. Perguntou se iria escrever sobre ele. Falei que sim. Não esboçou reação. Disse apenas que indubitavelmente seria algo farsesco. Perguntei-lhe o motivo, no que ele me respondeu, de um modo um tanto desconexo, que por essa razão estava assim, que não conseguia mais querer saber de literatura, uma vez que, notara de uma hora para outra, ela não era mais que uma mentira.

-Sim, eu lia como um louco. Mas houve uma hora que pensei, bem no meio das páginas de Salambõ, por que estou fazendo isso? De que adianta conhecer histórias que sabemos que são todas inventadas? É estúpido dedicar-se a essas confusas fantasias.

Foi então, ele disse, que jogou fora todas os seus livros. De repente, não tinham mais sentido. Ler invenções, para quê? É muita vontade de querer passar-se por demente, afirmou. Melhor é dedicar-se às insanidades habituais do cotidiano.

-Mas esse não foi o paradoxo, não foi isso que me levou até aqui. O problema é, sem a ficção, não consegui mais fazer nada. Sua mentira era para mim todo o sustento. Eu também sou uma farsa, senhor, assim como os seus livros. Nós todos somos, inevitavelmente. Daí que prefiro ficar extinto.

Foram essas suas palavras finais, depois nada me disse. A morte, claro, veio dali a alguns dias. Uma mensagem de celular me bastou como aviso. Os familiares recomendaram que deixasse o fato cair no esquecimento.

Foi exatamente o que tentei, porém, por óbvio, não pude. A cada dia, quando procuro avançar uma página, a lembrança dele me vem nalguma ideia paralisante. E é por isso que não cumpri nosso contrato, caro editor. Você, se quiser, que me puna, e tome por direito seu o meu dinheiro. Nada mais importa para quem viveu o tempo todo numa tolice delirante. Eis aqui agora o meu único instante real. O resto não era mais do que estúpido declínio.