O outono da classe média, por Victor Leandro

03/05/2020

Já não é de hoje que a nossa burguesia média-alta está doente. Porém, agora, as inclinações patológicas desta assumiram uma suma evidência. Suas compras, seus boletos, seus carros do ano, suas conversas patéticas e viagens estúpidas subiram-lhe à mente por inteiro, de modo que seus sintomas não são mais capazes de regredir. É a apoteose de uma histeria.

Ou o que os levaria a abandonar os sofás e os insossos churrascos de domingo para vociferar de carro em favor de um estranho não-líder, que em nada ultrapassa o seu espelho obscuro? Alguns poderiam dizer que são movidos pela força do ódio. Contudo, o odiar é uma força de avanço destrutivo, e não de compulsividade repetida. Andar em círculos só faz parte da rotina de uma doença que não produz.

Aos que permanecem mais sãos, todos esses casos servem de aviso. Viva burguesmente, e tudo o que fizer se tornará um grave signo. A existência autêntica está fora dos condomínios e das faturas dos cartões de crédito. A atrofia do intelecto é a consequência inevitável dos passatempos medíocres.

E o que será então de uma política, se for comandada por essa ordem neurastênica? Que se amenize ao menos esse efeito pandêmico. A razão é a vacina lógica contra a antipólis promovida pelo triste sujeito mediano.