O marxista imaginário, por Victor Leandro

06/10/2020

Há ismos para tudo, e também para Marx. Porém, como em quase todos os casos, são poucas as vezes em que o utilizamos bem. Contraditoriamente, o que mais encontramos são defensores ferrenhos da insígnia, apaixonados e supostos autênticos guardiões de seu legado, de modo que, dado o conjunto diverso das práticas associadas ao pensamento do filósofo alemão, fica cada vez mais difícil pensar o que seria um marxista verdadeiro, se é que isto é de fato acessível.

De qualquer forma, é possível elaborar conjecturas. Ora, duas são as maneiras pelas quais, em princípio, alguém se vincularia à figura de Marx. Uma, pelo exemplo de sua práxis política. Nesse caso, os laços seriam feitos através de um intenso envolvimento com os movimentos revolucionários hoje em voga, promovendo intervenções conjuntivas e críticas, tais como ele concebera e que resultaram, dentre outras criações, no manifesto comunista. Já a segunda consistiria em dar consecução a seus constructos teóricos, mantendo assim ativas as formulações de seu pensamento. Por óbvio, a elisão dessas duas formas seria o desejável, porém a observância de ao menos uma delas já estaria apta a funcionar como critério mínimo.

Não é preciso ir muito longe para notar que a maioria dos que se proclamam marxistas não se encontra em nenhuma dessas categorizações. Não produzem teoricamente, muito menos são ativos e críticos militantes políticos. Ao final, o que a maioria faz é tão só tomar o termo para si por simpatia ou por alguma afinidade eletiva, mas sem assumir as premissas fundamentais de tais posições. Ou então, fica-se no jogo inócuo e incompatível de utilizar Marx para justificar certos gostos e estilos de vida, debatendo problemas de resto irrelevantes para a questão revolucionária, como níveis de consumo ou programas televisivos.

São estes o marxistas imaginários, para quem o título é uma marca, um fetiche, uma peça de roupa que usam para reivindicar um destaque na multidão, o que seria absolutamente apenas ume exotismo tolerável, não fosse o seu prazer por julgar e excluir aqueles que não partilham de suas curiosas preferências.

De qualquer forma, nenhum desses debates leva à coisa alguma. Ainda que existissem marxistas verdadeiros e falsos, nada disso interessa à causa fundamental do povo. Olhemos para ela, e não precisaremos da filiação dos ismos para ir adiante. É isso que torna viável a propagação das ideias do autor de O capital.